17 de jan de 2016

Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino





No último dia 07 de janeiro, estreou nos cinemas nacionais Os Oitos Odiados (The Hateful Eight, no original), novo filme do diretor Quentin Tarantino. E esse oitavo trabalho do diretor já nasceu cheio de polêmica, visto que o roteiro original vazou e Tarantino chegou a afirmar que não faria mais o filme. 

Novamente se enredando pelo tema faroeste, por onde já havia se aventurado com Django Livre (2012), aqui Tarantino decide tratar de um período histórico bastante interessante dos EUA: o pós-guerra civil. Usando como pano de fundo a rixa ainda existente entre sulistas e nortistas, o diretor deixa exposto o racismo presente da época, com diálogos inteligentes – seu ponto forte – com argumentos que defendem ambos os lados, deixando evidente que como a maioria das guerras, é tudo uma questão de ponto de vista e interesses. Mas, obviamente, esse não é o mote principal do filme, servindo apenas de contexto para as situações que virão a se desenrolar ao longo da trama. 

A história do filme é simples, e nos faz lembrar de Cães de Aluguel, outro filme de Tarantino. A história segue oito personagens: o caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russel), que precisa chegar até a cidade de Red Rock e levar a prisioneira para a forca, a divertida Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh); um outro caçador de recompensas chamado Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), um negro que lutou na guerra civil e é conhecido por ter matado dezenas de brancos; o quase xerife Chris Mannix (Walton Goggins); o veterano de guerra e extremamente racista General Sanford Smithers (Bruce Dern); o carrasco da cidade, Oswaldo Mobray (Tim Roth); o misterioso cowboy Joe Gage (Michael Madsen); e o estalajadeiro mexicano chamado apenas pelo nome de Bob (Demian Bichir). Existe ainda um nono personagem, o cocheiro O.B (James Park), porém, sua participação é pontual, e como até mesmo um diálogo do filme deixa claro, é um personagem neutro.


Esses personagens peculiares se veem em meio ao uma forte nevasca, que os obriga a se abrigarem em uma estalagem até a tempestade passar. A tensão aumenta quando John Ruth cisma que um dos abrigados não é quem realmente diz ser, e que tem como objetivo libertar Daisy. 

Esse novo trabalho de Tarantino parece uma peça de teatro aberta ao público. Nos sentimos na plateia, vendo e ouvindo o desenrolar de uma trama cheia de entrelinhas em praticamente um cenário, com muitos e ótimos atores em cena. Falando em atuações, Bruce Dern (do excelente Nebraska) dá um show e toma as atenções durante boa parte da projeção. Samuel L. Jackson e seu debochado personagem também está ótimo no papel do cruel Major Marquis Warren. Jennifer Jason Leigh, muito especulada para disputas de prêmios importantes na próxima temporada de premiações, interpreta com profundidade sua difícil personagem. 

Assim como em Cães de Aluguel, Tarantino trabalha novamente com narrativas que se concentram em pouquíssimos cenários, explicitando o cunho teatral. Tarantino, diferentemente de muitos outros diretores contemporâneos, tem forte presença autoral nos textos de seus filmes. Escrevendo os roteiros de todos os seus trabalhos, é possível perceber semelhanças nítidas entre si. Não se trata da história de cada filme que sempre são originais, mas de algumas características que quem acompanha de perto já conhece. Diálogos poderosos, personagens bem desenvolvidos, flerte com violência gráfica, trabalho magistral com atores, nenhum receio em matar seus personagens por mais querido e vital para a obra – vide Django Livre – trilha musical marcante, recursos visuais um tanto estilizados, tensão crescente, a farsa, etc.


É interessante como o diretor segue com seu objetivo de redimir a pouca participação dos negros no faroeste. Se em Django o diretor usou o período da escravidão para criar um herói negro para o western, aqui ele usa o preconceito pós-guerra dos confederados (que defendiam a escravidão) para trabalhar o personagem de Samuel L. Jackson, o major Marquis Warren. Porém, a dificuldade aqui é outra, já que se Django era um herói nato, Warren é dotado de tons de cinza e não dá para dizer com clareza a real natureza do personagem, se ele é bom ou ruim. Ele é apenas o resultado do holocausto americano da guerra civil, marcado pela opressão histórica. 

Com sua oitava realização, Tarantino se aproxima do adeus ao cinema tão prometido por ele. Depois de uma obra com formato tão corajoso, além do texto polêmico e provocativo, fica a questão sobre o penúltimo projeto de Quentin. Eu, sinceramente, espero que ele reconsidere a sua decisão e que continue a escrever e dirigir por muito mais tempo.

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Leandro Faria  
Artur Lima: aficionado por cinema, música, seriados e livros, não nesta ordem, apaixonado por dias frios e chá. Estudante de Comunicação Social, acha que sabe de tudo e sonha em trabalhar com cinema.
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1 comentários:

Ramon Zarbinati disse...

Gostei muito do filme, você nunca sabe o que vai acontecer, não tem aquele clichê e vale cada minuto de filme. Um dos melhores que já vi sobre suspense

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