13 de jan de 2016

Spotlight – Segredos Revelados, de Tom McCarty





Vivemos em uma época de notícias instantâneas e efêmeras. Cada vez mais os grandes veículos de comunicação disponibilizam contatos de WhatsApp e outros canais que viabilizem ao público o envio de fotos, vídeos e notícias. Mas o que era uma aproximação entre as ruas e as redações acabou servindo para que os jornalistas não precisem levantar de suas cadeiras. Esse material é veiculado com apurações rasas, com erros ou informações incompletas e, muitas vezes, esquecidos no dia (ou mesmo nas horas) seguintes. 

É com esse cenário atual que Spotlight – Segredos Revelados estreia nos cinemas brasileiros, sendo obrigatório para qualquer jornalista ou comunicólogo do país. Ao apresentar o trabalho de uma pequena equipe que passa meses apurando denúncias graves, a fim de criar matérias que contestem e cobrem a verdade das instituições investigadas, o filme é um soco no estômago tanto pelo lado da trama quanto pela vontade de ler ou ver algo tão importante assim na nossa mídia (e, pelo que tenho lido em sites estrangeiros, na imprensa lá de fora também). 

O filme, baseado em fatos reais, conta a história da equipe do jornal Boston Globe, que, em 2001, passa a investigar abusos cometidos por padres e um esquema lucrativo de escritórios de advocacia que defendem a Igreja Católica. Antes do desenvolvimento da investigação, somos apresentados à cidade de Boston e aos personagens da redação, cada um com sua particularidade: o jornalista com sangue nos olhos, que não quer largar de lado nenhuma pista sequer; a neta que acompanha a avó nas missas; o pai de família; os editores carreiristas; e o novo chefe, que chega de fora sem o peso dos moradores da cidade, para apontar o dedo na ferida que todos tem noção, mas ninguém tem coragem de falar. 

Spotlight acerta ao escolher rostos desconhecidos para interpretar os personagens que sofreram abusos, tornando seu sofrimento mais real. As duas primeiras histórias são contadas em detalhes e as expressões das vítimas e dos jornalistas se completam, aumentando a angústia. A escalação dos personagens principais também é ótima, com destaque para o tipo esquisito e cheio de energia criado por Mark Ruffalo, o “macaco velho” feito por Michael Keaton, o forasteiro de Liev Schreiber e o advogado descrente, interpretado por Stanley Tucci. 

A dinâmica do filme cria tensão com cortes rápidos nas cenas investigativas e nos planos mais abertos, mostrando a dominação da religião na cidade. As torres de uma das igrejas praticamente engolem e dominam toda a tela ao mostrar de longe uma pequena varanda. Em um momento, o filme faz uma pausa na correria dos personagens e foca uma TV que noticia os ataques terroristas de 11 de setembro. É a direção nos dizendo: sim, isso aconteceu, é de verdade e estava ocorrendo ao mesmo tempo que você via essa mesma imagem. 

O trabalho feito pelo diretor Tom McCarty é magistral. Um filme que, assim como o clássico Todos os Homens do Presidente, deve ser mostrado e debatido nas faculdades de jornalismo. Ao final do filme, nós que também sabemos que atrocidades como as contadas ocorrem dia após dia embaixo de nossos narizes, nos deparamos com diversos sons de telefones tocando na sala do Spotlight, pessoas que querem gritar e contar aquilo que as aflige, pessoas que querem confiar no poder da notícia. 

Em seu último take, o filme deixa de lado o Prêmio Pulitzer que a equipe venceu, para mostrar apenas o legado de um jornalismo bem executado.

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Leandro Faria  
Alexandre Almeida, 20 e poucos anos, carioca, Relações Públicas, nerd e cinéfilo desde que se entende por gente. Fã de ficção científica, com uma tatuagem do Star Trek no braço esquerdo, tem como ídolo Steven Spielberg e ainda acredita no ato de colecionar filmes e não apenas baixá-los na internet.
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