29 de jan de 2016

Uma Crença Silenciosa em Anjos, de R. J. Ellory




Num desses acasos da vida, eu topei em um sebo com o livro Uma Crença Silenciosa Em Anjos. Confesso que nunca havia ouvido falar no livro, muito menos em seu autor, R.J. Ellory; entretanto, admito que fui mais atraído pela capa do que pelo contexto do livro, o que foi um grato equívoco. 

A primeira coisa que posso dizer é que foi uma das leituras mais deprimentes que já fiz. Por deprimente quero dar a entender que o livro cumpre perfeitamente sua intenção de perturbar o leitor em vários níveis, fazendo-o sentir-se com o coração apertado perante tanto sofrimento e injustiça, desafiando os limites mais insuportáveis da existência, tudo isso sem parecer forçado ou caricato. De fato, Uma Crença Silenciosa Em Anjos é uma completa jornada de enfrentamento das tragédias inerentes a todo ser humano, quando seus maiores temores se tornam realidade, quando a fatalidade é uma marca intrínseca da vida, uma sombra que tinge qualquer perspectiva de otimismo a longo prazo. 

Nossa história começa no ano de 1939, em plena Segunda Guerra Mundial. Mas estamos em Augusta Falls, um município rural na Geórgia, sul dos Estados Unidos. Lá, a guerra era um acontecimento distante, e só com o tempo começaram a chegar as notícias das atrocidades, das mortes de tantos judeus e do preconceito entre raças. 

Nosso protagonista é Joseph Vaugham, um menino de 12 anos que perdeu o pai e vive apenas com a mãe. Joseph sempre foi muito inteligente e seu maior sonho é se tornar um escritor de sucesso. Sua professora, a Srta Alexandra Webber, acreditou em seu talento, e sempre pedia para que ele nunca deixasse de escrever. Mas a inocência de Joseph, que achava que como o pai tinha sido um bom homem iria virar um anjo, começa a ser destruída quando uma colega de escola é assassinada brutalmente. 

O livro é descrito como um thriller, mas, particularmente, vejo que ele se desdobra em uma dimensão muito mais transcendental do que isso, assumindo um tom fortemente psicológico e dramático. A narrativa elegante de Ellory confere ao romance uma sobriedade belíssima em termos de linguagem, que chega a ser poética, embora lúgubre. Simultaneamente, o autor explora a psiquê dos personagens – sobretudo do protagonista, Joseph Vaughan, evidenciando o doloroso emaranhado de sentimentos, memórias e experiências vividas por ele desde a infância – enquanto constrói toda a atmosfera de paranoia e tensão coletiva que constitui o ponto de partida da história. 

O livro é uma história de superação, mas é ainda mais uma história sobre injustiça, maldade e preconceito. É também um livro que fala sobre o poder da escrita, sobre a paixão por se atingir um ideal. Aborda também a força do ser humano diante do pior que pode lhe acontecer. A narrativa alterna presente e passado, onde Joseph aos poucos vai nos contando os eventos que culminaram na cena atual: uma troca de tiros em um quarto de hotel em Nova York. É com aperto no coração que o leitor torce por aquela criança, por aquele rapaz, por aquele homem que só levou lombada na vida. 

Por fim, uma leitura fascinante, envolvente e pesada, mas gratificante e como o próprio personagem diz: 
“ Não sei como alguém pode suportar perder tanta gente e ainda acreditar na bondade fundamental do ser humano. ” 
Uma Crença Silenciosa Em Anjos
Autor: R.J. Ellory 
Páginas: 443 
Leandro Faria  
Artur Lima: aficionado por cinema, música, seriados e livros, não nesta ordem, apaixonado por dias frios e chá. Estudante de Comunicação Social, acha que sabe de tudo e sonha em trabalhar com cinema.
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