9 de fev de 2016

Carnaval: Considerações Sobre o Desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial Carioca





Ano após ano, o Rio de Janeiro promove o que a cidade intitula de "o maior espetáculo da Terra". Não estou aqui para contestar isso, realmente vale muito a pena ver os desfiles das escolas de samba do grupo especial carioca, onde luxo, ostentação, criatividade e corpos belíssimos podem ser apreciados — e aos montes — durante os dois dias de corso.

Pude comprovar isso mais uma vez. Desde criança assisto os desfiles das escolas pela televisão; não deixo de prestigiar o carnaval carioca, afinal, venho de uma família carnavalesca. Por isso, divido com vocês nesse texto as minhas impressões sobre o que vimos nos dois últimos dias na Marquês de Sapucaí.

No primeiro dia, tivemos enredos abstratos e outros nem tanto, porém, com a crise que assola o país, as escolas se viram obrigadas a apelar para a originalidade.

Estácio de Sá

Campeã em 1992, há um bom tempo vinha amargando colocações nos grupos de acesso, tentando voltar à elite do carnaval. Agora parece que ela conseguiu dar volta por cima. Com um enredo sobre o santo guerreiro, São Jorge, as alegorias e fantasias foram bem desenvolvidas e criativas, dando destaque para a estupenda comissão de frente com um gigantesco São Jorge enfrentando o dragão. Se a intenção é permanecer no grupo, conseguiu, com um carnaval organizado e digno de grande escola.

União da Ilha

Talvez a escola mais simpática do Rio, voltou às origens com um enredo de fácil assimilação por parte do público. Ao homenagear o Rio como cidade olímpica, deixou o convencional e abusou da criatividade nas fantasias. Trouxe uma comissão de frente com cadeirantes que fizeram o público arregalar os olhos. A bateria deu um show à parte, compensando o fraco samba-enredo. O páreo é duro, mas esta merece voltar no desfile das campeãs.

Beija-Flor

A campeã do ano passado resolveu fazer um enredo didático, talvez até demais, sobre o homem que dá nome à avenida mais famosa durante o reinado de Momo. Chega a impressionar os feitos do famoso Marquês de Sapucaí. Veio mais uma vez luxuosa, porém, as alegorias e fantasias não tiveram o mesmo impacto de anos anteriores; vai ver foi mesmo a crise.

Grande Rio

Há um bom tempo desfila entre as campeãs e tenta conseguir o primeiro título da sua história. Famosa por ter sempre um grande número de famosos, este ano deu uma enxugada. Ana Hickman provou que não sabe sambar e Paloma Bernardi não conseguiu brilhar na frente da escola que falava sobre a cidade de Santos, em São Paulo. A bem da verdade, o enredo se perdeu e focou mais em puxar o saco de Pelé e Neymar do que na própria cidade. Uma pena, frustrou a todos e acabou sendo o pior desfile da noite.

Mocidade

Já faz tempo que a escola de Padre Miguel não está entre as grandes, ficando sempre em posições intermediárias. Se ano passado contratou a peso de ouro o campeoníssimo Paulo Barros, o que não deu certo, este ano teve outro campeão, Alexandre Louzada, que tentou fazer um belo carnaval, com um enredo poético sobre a vinda de Dom Quixote ao Brasil. A escola não fez feio, mas também não fez bonito, e muitas de suas alegorias entraram inacabadas e as fantasias eram de difícil assimilação perante o público que, se não teve um roteiro nas mãos, não entendeu nada.

Unidos da Tijuca

A escola que mais cresceu nos últimos anos prova mais uma vez que não precisa de Paulo Barros. Sua comissão de carnaval elaborou um enredo de fácil aceitação, com um samba bonito, que fez o povo cantar e se encantar pela escola, com alegorias belíssimas e fantasias leves que facilitavam a evolução da escola. A bateria nota dez do mestre Casagrande foi um dos muitos destaques ao lado de Juliana Alves e do casal de mestre-sala e porta-bandeira, que vieram logo após a comissão de frente. Nas alegorias, a teatralização foi bem executada mais uma vez pela escola. 
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E lógico que não se pode falar de carnaval sem esquecer de mencionar a transmissão da Globo saudades da Manchete que deveria pegar a equipe da GloboNews e tentar fazer algo melhor, porque com exceção de Milton Cunha, mais uma vez roubando a cena, todos os outros não entendem nada do que estão falando. Fátima Bernardes até tenta com sua simpatia salvar alguma coisa, mas ficamos nisso. E o ponto alto da transmissão foi Susana Viera, o que não poderia deixar de ser, dando baile no carnavalesco que, visivelmente ficou constrangido, porque não queria vir em cima do carro. 
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No segundo dia, mais seis escolas garantiram seu lugar no mais alto grau do espetáculo. A transmissão continuou aquilo de sempre, ignorando a primeira escola. Mas, felizmente, o sinal estava liberado na internet e pude assistir tudo do começo ao fim. Comparando com o primeiro dia, o segundo foi melhor.

Vila Isabel

Com um enredo homenageando o político Miguel Arraes, a escola contou e cantou a cultura pernambucana, arrancando aplausos do público e provando que, depois do desastre de 2014 que quase rebaixou a agremiação, ela se reergueu e briga pelo título. Comissão de frente, fantasias e alegorias de alto nível num enredo linear e completamente compreensível, movido por um samba de primeira linha. Entretanto foi durante o lindo desfile que a Globo cometeu sua maior gafe. Durante a transmissão e ainda faltando 2 alegorias para serem exibidas, a emissora do nada encerra a apresentação. Podia-se ouvir em off a conversa entre ele e Fátima Bernardes, atônitos, sem entender o que estava acontecendo.

Salgueiro

Arrancando gritos de "é campeã", a escola mais uma vez se consagrou na avenida. Inspirados na peça de Chico Buarque, os carnavalescos Renato e Márcia Lage propuseram uma ópera dos malandros e haviam muitos de todos os tipos. A comissão de frente deixou de lado alegorias grandes, a bateria furiosa veio de Geni com um zeppelin inflável sobre ela e Viviane Araújo numa fantasia inspirada no malandro Max Overseas, o protagonista da história brilhou mais uma vez.

São  Clemente

Rosa Magalhães, a grande mestra de todos os carnavalescos, sabe se reinventar. Em seu segundo ano na escola, falou da história dos palhaços num excelente trabalho cênico repleto de detalhes. Alegorias e fantasias leves criaram um carnaval descontraído. Uma grande bateria ajudou os componentes, entretanto, o samba deixou a desejar e a evolução teve um sério problema quando um dos carros empacou no meio do desfile deixando um enorme clarão. Uma pena.

Portela

A maior campeã dos desfiles de escolas de samba amarga 32 anos sem uma vitória. Quase chegando lá, este ano ela pode se consagrar num carnaval mais uma vez emocionante. Porém, para quem esperava grandes surpresas de Paulo Barros, a única foi o flyboard na comissão de frente, que espalhou muita água, deixando o casal de mestre-sala e porta-bandeira um tanto tensos e com a apresentação tímida. Um dos carros trouxe o gigante Guliver, já que a escola falava de grandes viagens. Favorita mais uma vez, deve voltar no sábado das campeãs, resta saber se como campeã.

Imperatriz

A escola de Ramos se encarregou de contar a história dos dois filhos de Francisco, trazendo o universo sertanejo. Nada demais. Na verdade, para quem assistiu de casa, deu sono.

Mangueira

Homenageando Maria Bethânia, a escola é outra que pode pensar no título. Emocionando a todos com um carnaval opulento que trouxe de volta o brio da nação verde e rosa.

Saldo final: muitas escolas estarão disputando o título. Se a justiça for feita (algo que praticamente não existe no carnaval carioca), pra mim está entre Tijuca, Salgueiro e Portela. Grande Rio e Mocidade devem amargar as últimas posições. E, por favor Rede Globo, exiba todas as escolas, a grade engessada da sua programação não combina mais com os novos tempos.

Agora resta aguardar o resultado amanhã. E você, torce por quem?

Serginho Tavares  
Serginho Tavares, apreciador de cinema, para ele um lugar mágico e sagrado, de TV e literatura. Adora escrever. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência e com os pés bem firmes na terra.
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