22 de fev de 2016

#Cinema: A Garota Dinamarquesa, de Tom Hooper





Poucas vezes eu li livros que inspiraram filmes. Lembro de dois casos pontuais. A primeira experiência, traumática, foi com O Caçador de Pipas, obra adaptada para o cinema em 2007. No ano anterior, 2006, o livro era o queridinho dos brasileiros, sempre nas listas dos mais lidos e indicados. Não me fiz de rogado e entrei na onda, li emocionado, tenso e revoltado a cada página, o romance de Khaled Hosseini, e tive que dar o braço a torcer, o livro era bom bagarai. 

Notícias sobre sua adaptação para as telonas me deixaram empolgado e ansioso. O livro era um novelão forte e cheio de drama, sem dúvidas daria um belo de um filmaço. Ledo engano. O Caçador de Pipas, o filme, foi uma imensa decepção. Toda a riqueza de detalhes, tão importante e envolvente, ficou de fora, o filme perdeu toda a intensidade, e então decidi nunca mais ler a obra literária antes de ver a cinematográfica. Foi o que fiz.

Então assisti Philomena (2013), e amei. Quando li o livro (depois de ver o filme), transcendi. Tudo maravilhoso, livro e filme, guardadas as devidas proporções. Agora é chegada a hora de conhecer Lilly Elbe e sua intensa e conturbada vida, mais profundamente, pelas páginas de A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl, no original). Porque o filme, meus caros, é tudo de gracioso e emocionante que andam dizendo, mas certamente é uma parte ínfima de tudo o que a pioneira na luta pelos direitos de pessoas transgêneras viveu.

E já que o filme do diretor Tom Hooper é tão bom, vamos a ele. Einar Wegener é um pintor dinamarquês, nascido na pequena e bucólica Vejle. De razoável sucesso e reconhecimento, ele é casado com a também pintora Gerda Gottlieb, que pinta retratos de pessoas e encontra dificuldades em ter suas obras expostas. Um dia, quando pede ao marido que pose para ela a fim de finalizar um quadro inacabado, de uma amiga bailarina, Einar calça os sapatos e as meias, e recosta o vestido da modelo em seu corpo. E o que era pra ser uma pequena ajuda à sua amada esposa, torna-se a chave-mestra que abre as portas para Lilly entrar de vez e tomar conta da vida de Einar.

Cúmplices, Einar e Gerda transformam Lilly em uma prima de Einar, que sempre os visita e torna-se modelo exclusiva de Gerda. À partir dos quadros que pinta, retratando a bela e sensual Lilly, Gerda consegue finalmente expor suas obras, que fazem um tremendo sucesso. Mas quando a ficha de Gerda começa a cair, após flagrar Lilly, que para ela é seu esposo, Einar, sendo beijada por um homem em uma festa, o que era apenas uma brincadeira secreta do casal, muda de figura e torna-se um doloroso drama.


De um lado Lilly, entendendo-se cada vez mais como uma mulher transgênero, querendo parar de ser tratada e vista por Gerda como Einar. Do outro lado Gerda, compreensiva e companheira, mas desejando seu marido de volta, sem conseguir entender o que se passa, levando-o a médicos e psicólogos, tentando ajudá-lo de todas as formas.

O ano era 1926, e se hoje ainda é difícil ser pessoa trans, imagina naquela época. Lilly sofreu muito, mas foi forte e guerreira. A relação entre Gerda e Lilly é tão linda e tocante, que eu desejei que Lilly fosse uma mulher trans lésbica, só para que as duas continuassem casadas e felizes, pois Gerda foi incansável em seu apoio à Lilly, demonstrando o maior amor do mundo. Mas Lilly não era lésbica, ela gostava de homens, era uma pessoa trans heterossexual, e esse pequeno esclarecimento no filme, que na verdade é enorme, é de grande contribuição para um detalhe que ainda é bastante confuso para muitos. Questão de gênero não tem a ver com identidade sexual. Uma mulher trans como Lilly, não necessariamente sente-se atraída por homens, como é o caso de Nomi, no seriado Sense8, que sentia-se um corpo estranho no gênero masculino, mas sempre atraiu-se por mulheres, ao mudar seu corpo para o gênero feminino tornou-se uma trans lésbica. Já Lilly adequou seu corpo ao seu desejo sexual, como trans heterossexual. O mesmo vale para homens trans, que podem ser gays ou héteros.

Num trecho rápido do filme, Lilly explica para Gerda que sente ciúme ao vê-la tomando um café com o homem que a beijou na festa, que nada há entre eles além de amizade, pois o sujeito é gay, e quando a beijou, foi porque sentia-se atraído por Einar. A Garota Dinamarquesa trata as questões de gênero com muito cuidado e respeito, mas tudo de forma suave, o que de certa forma dá uma angústia, pois ser uma pessoa transgênera em plena década de 20 deveria ser tudo, menos suave. Por isso não tenho dúvidas, o livro deve ser estonteante, um soco atrás do outro no estômago, pra te deixar sem ar. E já que é pra mergulhar, que seja profundamente.

O filme é triste, mas não é melancólico, e a cena final é de uma beleza e significado ímpares. Os atores estão deslumbrantes. Falar de Ed Redmayne é chover no molhado, minha torcida não pode ser pra outro senão pro próprio, apesar de achar que a Academia deve um prêmio a Léo DiCaprio e amar com todas as forças Mark Ruffalo. Quanto a Alicia Vikander, deveria estar concorrendo como Melhor Atriz e não Coadjuvante, pois ela é tão protagonista quanto Redmayne, que já tem por si só em mãos uma personagem esplêndida, mas Alicia passa com sua Gerda um misto de delicadeza e força, difíceis de equilibrar, e faz magistralmente.

E que venham os prêmios, porque eu vou em busca do livro de David Ebershoff, que serviu de inspiração para o filme. Quero ficar na companhia de Lilly por mais um tempo.  

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Leandro Faria  
Esdras Bailone: leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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1 comentários:

Dany Guimarães disse...

To querendo muito ver esse filme, só pelo trailer achei lindo;

Da uma conferida no meu blog? http://danywriter.blogspot.com.br/

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