27 de fev de 2016

#Cinema: Tangerine, de Sean Baker





Em meio a tantas super produções concorrentes ao Oscar 2016, me deparo com um filme independente, despretensioso e de uma enorme delicadeza. Assim é Tangerine, do diretor Sean Baker, um verdadeiro achado, em cartaz ao mesmo tempo que os pretensiosos longas na corrida pela estatueta dourada.

Tangerine inova em dois pontos essenciais para que um filme seja um sucesso ou um fracasso. O primeiro é na forma como é filmado pelo diretor Sean Baker, que utilizou-se de apenas três iPhones 5s para filmar seu longa. O segundo ponto inovador é a história, a alma de qualquer filme, que trás duas protagonistas transexuais, ao narrar um dia na vida de duas amigas travestis: Sin Dee e Alexandra. Vividas por Kitana Kiki Rodrigues e Mya Taylor, duas atrizes não profissionais, e o diferencial de não ter sido filmado com as grandiosas câmeras de cinema, o filme confere uma naturalidade arrebatadora à narrativa.

Alexandra e Sin Dee trabalham nas ruas de Los Angeles e são melhores amigas. A segunda acaba de sair da cadeia, onde cumpriu pena por 28 dias ao ser pega carregando drogas para o seu namorado, o cafetão Chester. A primeira pessoa que Sin Dee encontra quando posta em liberdade é Alexandra; é véspera de Natal, e num bate papo descontraído entre amigas num café, Alexandra deixa escapar que Chester, a quem Sin Dee está louca para reencontrar, está traindo-a com uma "mulher de verdade". Possessa, Sin Dee quer saber quem é a "rachada" que está transando com seu homem, e parte em uma busca desenfreada pelas bocas do lixo da cidade até encontrá-la. Alexandra, por sua vez, vendo o descontrole da amiga, desiste de acompanhá-la, mais preocupada com o show que apresentará à noite em uma casa noturna.

Acompanhamos então a busca de Sin Dee pela amante de seu namorado, e a ansiedade de Alexandra por seu show, ao sair pelas ruas distribuindo a todos os conhecidos panfletos da apresentação, paralelamente a um dia de trabalho na vida do taxista armênio Razmik. Aos poucos descobrimos a ligação entre esses três personagens.


Tangerine tem a proeza de expor a realidade pesada do submundo das travestis que se prostituem nas ruas, de forma sutil. Está tudo lá: drogas, ataque transfóbico, clientes trapaceiros, homens casados que deixam mulher e filho pequeno em casa pra fazer sexo com travestis, mas nada é indigesto. Apesar de ser um drama, o filme trás uma boa carga de humor. Um humor bem dosado, real, que existe na vida delas, as meninas com um algo a mais, que sofrem, mas não perdem a ternura de achar e fazer graça da vida.

Alexandra e Sin Dee são apaixonantes, cada uma a seu modo, com sua dor, anseios e sonhos. Enquanto uma deseja o amor sincero e leal de seu Chester, a outra sonha com uma carreira artística de brilho e glamour. E cientes da impossibilidade de seus sonhos, elas e nós, ao vermos seus olhos brilharem de cansaço, e entre suspiros, ao final de mais um dia exaustivo, temos vontade de levá-las pra casa. No final, é tudo sobre a força de uma amizade que torna qualquer realidade, por mais dura que seja, suportável.

Mya Taylor e Kitana Kiki Rodrigues nos emocionam sem muitos recursos, à vontade para interpretar a realidade que conhecem bem, graças a ousadia de Sean Baker em usar a falta de grana a seu favor, ao utilizar celulares para filmar a imensa beleza da simplicidade. Ganhamos todos, as atrizes, o diretor, o cinema e, principalmente, nós, espectadores, que saímos da sessão um pouco mais humanos ao nos colocarmos no lugar do outro diante de uma história, talvez muito distante de nossa realidade, mas enternecedora.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone: leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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