15 de mar de 2016

#Literatura: Uma Cama Quebrada, de Roberto Muniz Dias




Um assunto bastante em voga ultimamente, em se tratando de relacionamentos, é um certo poliamor. A inclusão de uma terceira pessoa em um namoro ou casamento. Fala-se muito também em relacionamentos abertos, casais que ficam e transam com outras pessoas com o consentimento do parceiro. Não seria o caso de poliamor, que é na verdade uma relação amorosa fixa entre três pessoas. Mas abrir o relacionamento para que se tenha maior liberdade sexual é a grande porta de entrada para que o terceiro elemento torne-se um membro permanente na relação e não mais apenas uma aventura. Hoje em dia essa prática amorosa é muito mais comum do que se imagina. Sinal dos tempos? Talvez.

É justamente sobre esse tema que se debruça o escritor e amigo querido, Roberto Muniz Dias, em seu mais recente livro Uma Cama Quebrada. Escrito em forma de roteiro para teatro, a obra de Roberto já teve algumas montagens modestas e leituras dramáticas, ensaiando um caminho no qual o autor pretende se aventurar mais vezes, o do roteiro teatral.

Uma Cama Quebrada apresenta-se como um diálogo contemporâneo sobre o amor, complexo, intenso, incerto, desconhecido. Na cama, as certezas, os padrões instituídos e a própria ideia de amor parece se perder, mais que perder-se entre tantos desejos e toques, os sentimentos se reorganizam com a carne, transformam-se e se reinventam, singulares, tomando novos rumos. Um vinho e três taças, o resto é desconhecido.

Assim, acompanhamos a história de Pedro, um artista plástico que se envolve em uma relação insólita com o casal Ênio e Dino. Pedro vive esta relação intensamente, mudando-se para a casa do casal, mas nesta convivência descobre da forma mais dolorosa, que no amor, três pode ser demais, e tudo o que é demais sobra.

A narrativa é entrecortada pelas falas de Pedro em três tempos: o convívio, a separação e o diálogo inusitado com a figura misteriosa de um quadro. O livro/peça se aventura nestas memórias de um amor nada convencional. Entre o presente e o passado, o quadro de um galo colorido, o remete sempre a esta paixão inusitada. O amor entre estes três homens se intensifica à medida que não descobrem o que fazer com ele. As identidades são esfaceladas pela lembrança, pelos medos, ciúmes e a morte das coisas vivas.

Uma Cama Quebrada é livremente inspirado no livro Urânios, do mesmo Roberto Muniz Dias, escrito em 2013. É uma tentativa de sintetizar o pensamento do escritor acerca das relações afetivas atuais, da poliafetividade, da desilusão amorosa e da desconstrução dos desejos. Em muitos momentos, o livro relativamente curto, de apenas 80 páginas, me remeteu ao clássico de Oscar Wilde: O Retrato de Dorian Gray, e estejam certos meus caros, isso não é pouca coisa.

Roberto Muniz Dias é romancista, contista, poeta, dramaturgo, artista plástico e mestre em Literatura pela UNB (Universidade de Brasília). Piauiense, de Teresina, mas morador da Capital Federal, seus textos são intensos, dramáticos e cheios de vaivéns atemporais. De uma tal profundidade de sentimentos que arrebatam o leitor já nas primeiras linhas. É autor de Adeus Aleto, pelo qual foi premiado pela Fundação Monsenhor Chaves com menção honrosa; Um Buquê ImprovisadoO Princípe - O Mocinho ou o Herói Podem Ser GaysErrorragia: Contos, Crônicas e InsegurançasUrânios e A Teia de Germano.

O meu amigo Roberto, que não é o Carlos, mas também arrasa, produz enlouquecidamente, e promete muitas novidades em breve. Enquanto isso, aproveite para conhecer mais do autor começando por Uma Cama Quebrada, que em tempos de poliamor é ótima pedida, de preferência em um domingo de chuva, às 5 da tarde.

Uma Cama Quebrada
Autor: Roberto Muniz Dias
Páginas: 80
Editora: Giostri

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Leandro Faria  
Esdras Bailone: leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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