19 de abr de 2016

#Cinema: Batman vs Superman - A Origem da Justiça, de Zack Snyder





Por Que Tão Sério? - Uma Reflexão Sobre Batman vs Superman

Assim que assisti ao filme  Batman vs Superman – A Origem da Justiça, de Zack Snyder, fui correndo trocar com meus amigos nerds minhas impressões sobre esse filme tão aguardado. Um deles fez o seguinte comentário: “Acho que ele não deveria se levar tão a sério”. Fiquei pensando nisso e me veio à mente a frase-chave do Coringa de Heath Ledger em O Cavaleiro das Trevas: “Por que tão sério?”

As histórias em quadrinhos começaram como apenas entretenimento e, ao longo dos anos, foram se firmando como arte relevante. Se nos anos 30, com o surgimento dos super-heróis, as histórias se baseavam em ficção científica e na literatura “pulp”, hoje elas abordam todos os assuntos, são veículos eficientes de comunicação e expressam ideias de vários artistas e de inúmeras culturas, abrangendo um número infinito de pessoas ao redor do mundo. Observando isso, podemos concluir que uma história em quadrinhos pode tratar de assuntos mais complexos. Então, por que um filme baseado nelas também não pode ter essa função?

O diretor Zack Snyder ousa em fazer seu filme de super-heróis mais denso, repleto de questionamentos políticos, religiosos e sociais, mesmo que de uma forma leve, e ainda se mostra um grande conhecedor de quadrinhos e da Sétima Arte. O argumento do seu filme se baseia em várias sagas, graphic novels e arcos de histórias dos principais personagens da DC Comics. Destaco uma em especial, chamada Paz Na Terra, escrita por Paul Dini e esplendidamente desenhada pelo artista Alex Ross. Publicada em 1998, por ocasião dos 60 anos do personagem, conta a história de quando o Superman resolve usar seus poderes para acabar com a fome no mundo. Sua iniciativa é vista com desconfiança pelo governo dos EUA, mas Kal-El tem certeza de que o resto do mundo vai apoia-lo. Entretanto, ao se deparar com o “mundo real” – a indiferença das pessoas, daqueles que o veem como ameaça, um intruso etc., Superman percebe que, apesar de suas habilidades maravilhosas, não é o homem mais poderoso do universo. 

Esse clima de pessimismo e desconfiança vai permear todo filme, gerando certo desconforto, remetendo a outra obra baseada em histórias em quadrinhos dirigida por Snyder – Watchmen, de 2009, adaptado da graphic novel de Alan Moore, onde um grupo de super-heróis decadentes enfrenta dramas mais humanos. Um dos fatores mais importantes do filme é a questão da humanidade ter voz na história. Talvez a cena mais comovente seja o depoimento de uma mulher que viu toda sua família e vilarejo serem assassinados, em retaliação aos atos do Superman no seu país para salvar a vida de Lois Lane. Além de participações especiais de “gente de verdade” como cientista Neil DeGrasse Tyson (da série Cosmos), do jornalista da CNN Anderson Cooper, entre outros. 

A reclamação do tom soturno e da falta de senso de humor no roteiro soa incoerente para quem acompanhou a trajetória dos filmes da DC Comics nos últimos 25 anos. Quando Batman – O Retorno, de Tim Burton, chegou aos cinemas em 1992, as críticas foram semelhantes. Burton fez uma alegoria política bizarra e sombria que não agradou aos fãs da época. Mesmo sendo um filme exemplar, a Warner substituiu Burton por Joel Schummacher em Batman Eternamente, em 1995, um filme mais leve e com muito mais senso de humor (nada muito diferente do que a Marvel faz com seus filmes hoje). Porém, a fraca sequência Batman & Robin, de 1997, enterra a franquia do Homem-Morcego. Oito anos depois, a Warner resolveu fazer um reboot da franquia e Christopher Nolan faz sua célebre trilogia O Cavaleiro Das Trevas (2005, 2008 e 2012) – retomando o tom sombrio e mais sério.

Talvez a comparação imediata com os filmes da Marvel, que são divertidos, brilhantes e barulhentos, tenha causado certo estranhamento em uma parcela do público. No entanto, há bons momentos de humor, geralmente provocados pelo excêntrico Lex Luthor de Jesse Eisenberg, e pelo mordomo Alfred, interpretado pelo excelente Jeremy Irons. E lembremos que depois da consagrada graphic novel O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, de 1986, Batman e Superman estão longe de serem heróis “engraçadinhos”.

Por ter elementos mais complexos na trama, exige-se um elenco mais afiado. O inglês Henry Cavill, que já havia feito um bom trabalho no filme anterior, O Homem de Aço, de 2013, se difere de Christopher Reeve porque seu Superman é muito mais angustiado. Não é nenhum Laurence Olivier, mas dá conta do recado. Amy Adams nos apresenta uma Lois Lane com mais profundidade do que apenas ser uma donzela a ser salva, com relevância para o desenvolvimento da trama, que leva inclusive para o esperado filme Liga da Justiça. Com menos apelo dramático, mas responsável pelas principais críticas positivas do filme, está Gal Gadot, a primeira Mulher-Maravilha do cinema. Nada comparado à ingenuidade kitsch do seriado com Lynda Carter, a nova versão da Princesa Diana levanta a plateia e nos deixa ansiosos para ver seu filme solo que estreia em 2017.

E, por fim, Ben Affleck provou que é digno de usar o manto do Morcego, a despeito de toda crítica que recebeu quando foi escolhido para o papel. A comparação com o fiasco O Demolidor, de 2003, deixou os fãs incertos da sua escolha, mas após o êxito do seu filme Argo, ganhador do Oscar de Melhor Filme, mostrou que Ben Affleck tinha capacidade de encarnar o Guardião de Gotham. Affleck sempre foi fã de histórias em quadrinhos e é amigo íntimo do diretor Kevin Smith, que é maníaco por quadrinhos e esteve envolvido no roteiro de Superman Lives – filme de 1996, que seria dirigido por Tim Burton e teria Nicholas Cage como o Homem de Aço. A Warner cancelou o projeto durante a pré-produção e os motivos permanecem um mistério. Smith é diretor de Procura-se Amy, de 1997, e do polêmico Dogma, de 1999, ambos com Ben Affleck. 

Apesar de todas as críticas, Batman vs Superman – A Origem da Justiça quer ser apenas um filme diferente. Em 2014, na ocasião do lançamento de O Hobbit – A Batalha dos Cinco Exércitos, um repórter perguntou ao diretor Peter Jackson por que ele não levou em consideração a opinião dos fãs ao adaptar o livro de Tolkien. Ao que Jackson respondeu: “Eu não faço filmes para os fãs. Faço para mim”. Então, acredito que essa opinião seja também compartilhada por Snyder. Não é realmente um filme exclusivo para fãs, é uma obra cinematográfica em que os dois personagens principais são os maiores ícones das histórias em quadrinhos ocidentais. Apesar do tom sério, Snyder nunca perde a consciência de estar fazendo um filme de super-heróis. Tem muita ação, barulho e pirotecnia! Vemos o Superman fazer suas maravilhas e a sequência com o Batmóvel é de tirar o fôlego! E ver a Trindade da DC Comics (Superman, Batman e Mulher-Maravilha) juntos pela primeira vez é de deixar qualquer nerd quarentão, que cresceu assistindo os desenhos dos Superamigos com os olhos marejados. 

E no fim, por que tão sério? Talvez para perdermos o preconceito com as adaptações cinematográficas das histórias em quadrinhos. Se hoje elas são vistas mundialmente como obras relevantes, seus correspondestes em película também tem o direito de carregar uma mensagem além do mero entretenimento.
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Leandro Faria  
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