8 de jun de 2016

#Literatura: Depois a Louca Sou Eu, de Tati Bernardi





Eu trabalhava em uma livraria. Enquanto organizava em ordem alfabética, por nome de autor, os livros de alguma prateleira, uma moça loira e jovem, parecida recém-saída da adolescência, pediu minha ajuda para encontrar um livro de Tati Bernardi. Eu, que nunca tinha ouvido falar na tal escritora, titubeei, mas quando a moça me disse que a autora em questão escrevia novelas, desconfiei. E perguntei se ela tinha certeza. Impossível um noveleiro como eu nunca ter ouvido falar em uma autora de novelas chamada Tati Bernardi. Tive certeza que aquela garota estava equivocada, mas ela me garantiu. Fui procurar no site de busca da loja e, voilà, a moça tinha razão. Encontrei o livro que ela queria. Ela saiu feliz, e eu fiquei inconformado por nunca ter ouvido falar naquela escritora que fazia novelas, como assim, Brasil? Mais do que trabalhar em uma livraria, eu era um noveleiro de carteirinha, não me conformava em desconhecer Tati Bernardi, que já tinha ido até no Jô, segundo a cliente.

Decidi conhecer melhor a escritora com nome de adolescente e levei um exemplar pra casa, o título era irresistível: Tô Com Vontade de Uma Coisa Que Eu Não Sei O Que É. Pronto, me apaixonei à primeira página. Era um livro de crônicas, um dos estilos que mais gosto. Cronista de mão cheia, Tati me remeteu de imediato à Martha Medeiros (outra cronista que amo, sobre a qual já escrevi algumas vezes), só que mais desbocada e debochada, uma Martha 20 anos mais jovem.

Isso foi em 2012, três anos depois do lançamento do livro, que aconteceu em 2009, ou seja, passei três longos anos sem saber da existência de Tati Bernardi. Mas sempre há tempo de se atualizar. Procurei tudo sobre Tati. Assisti sua entrevista pro Jô e fui atrás de mais crônicas da moça, que é paulistana, publicitária, assina uma coluna semanal no F5, é roteirista de cinema e autora da Rede Globo, onde foi colaboradora nas novelas A Vida da Gente (2011) Sangue Bom (2013) (ótimas novelas, diga-se de passagem), além de alguns seriados, como Dicas de Um Sedutor (2008).

De lá pra cá, empolgado com os textos divertidos e sem censura de Tati Bernardi, fiquei ansioso por um próximo lançamento. Tive que esperar mais quatro anos pra ter um livro físico de Tati em mãos mas, finalmente, em 2016, chegou Depois a Louca Sou Eu. Já mais conhecida, a moça divulgou o livro à exaustão nas redes sociais, programas de TV e noites de autógrafos pelas principais livrarias do Brasil, o que o levou ao primeiro lugar em vendas por várias semanas consecutivas, deixando-o até o momento entre os dez mais vendidos do país.

Em Depois a Louca Sou Eu, Tati Bernardi ri da própria desgraça. Ao longo de 22 crônicas, ela descreve minuciosamente, e de forma hilária, as agruras e perrengues que sofreu durante os anos que foi vítima da Síndrome do Pânico. As primeiras crises, a mania de fazer listas, o medo de viajar de avião, os remédios tarja-preta, o pânico de vomitar, tudo aparece sob o filtro de uma cabeça fervilhante de pensamentos, mãos trêmulas, falta de ar, taquicardia e, sobretudo, humor.

Tati consegue a alquimia de falar de um tema delicado, provocar gargalhadas e ainda manter o pacto de seriedade com o leitor. A velocidade de suas frases ecoa uma mente em tumulto. A clareza das descrições expõe com limpidez sentimentos íntimos e difusos. A capacidade de rir de si mesma confere a tudo isso distância, graça e humanidade.

Perto do desfecho do livro, quando já não há antidepressivo nem terapeuta que dê conta, a literatura aparece como medicina das almas, capaz de remediar o escritor autêntico e o leitor sincero. Pois, numa constatação inquietante mas tranquilizadora, "ninguém está bem".

Depois a Louca Sou Eu
Autora: Tati Bernardi
Páginas: 140
Editora: Companhia das Letras

Leia Também:
Leandro Faria  
Esdras Bailone: leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
FacebookTwitter


0 comentários:

Share