21 de jul de 2016

#Cinema: Janis: Little Girl Blue, de Amy J. Berg





Não me lembro ao certo quando foi a primeira vez que ouvi Janis Joplin, mas lembro o efeito que aquilo causou em mim. Quem é a dona dessa voz rascante e potente?, me pus a pesquisar sobre Janis e me apaixonei pelo seu jeito, pela sua atitude e por sua música e, por isso, hoje tenho a difícil missão de escrever minha opinião sobre o documentário Janis: Little Girl Blue

Janis: Little Girl Blue é o tipo do documentário que não só respeita sua personagem, como amplia as formas de se olhar para ela. Não é tarefa simples, ainda mais em se tratando de um ícone do rock, folk e blues, que morreu tragicamente cedo e sobre a qual parece que quase tudo já foi dito, 46 anos após sua morte. 

Dirigido por Amy J. Berg – indicada ao Oscar em 2007 pelo documentário Livrai-nos do Mal – e produzido ao longo de sete anos, o filme ultrapassa o risco de tornar-se apenas mais uma investida em torno dos notórios e inevitáveis fantasmas da cantora Janis Joplin (1943-1970), como a timidez, a inadequação, o bullying, a dependência química e, especialmente uma assustadora solidão, para concretizar uma serena e afetuosa reconstituição de seus passos. Para isso, toma como guias suas cartas pessoais, além dos habituais testemunhos de parentes, amigos, colegas e materiais de arquivo. 

Janis Joplin já havia sido objeto de um documentário na década de 1970, dirigido por Howard Alk, mas esse atualmente em cartaz, vai mais fundo na personalidade da cantora. Não é raro que todos esses astros, especialmente Janis e Amy, sejam vistos como irresponsáveis e inconsequentes. Gente que só morreu porque não tinha nada na cabeça e, por não ter nada na cabeça, tinha mais é que morrer mesmo. Na visão reducionista que o homem tem de si mesmo, agrupar pessoas entre boas e ruins torna-se uma tarefa de relativa simplicidade. E, se a pessoa em questão tiver um estilo de vida que nos afronte, colocá-la no segundo grupo é ainda mais fácil. Se ela for uma junkie, isso é praticamente obrigatório.


Ao não fazer isso, esse talvez seja o grande mérito do filme de Amy Berg. Mais do que apresentar um apanhado geral da carreira meteórica da cantora, o documentário traça um delicado perfil pessoal de Janis, revelando suas incertezas, seus desejos e a personalidade doce que contrastava com o furacão que ela era no palco. A urgência que ela sentia de ganhar o mundo fica clara pelas várias tomadas feitas na estrada, em ferrovias e em aviões, opção encontrada pela diretora para retratar a necessidade que Janis sentia de deixar Port Arthur, no Texas, onde cresceu sofrendo por ser diferente, por não se adequar aos padrões da comunidade. 

O bullying sofrido na escola, a desaprovação paterna e o machismo da época contribuem decisivamente para um quadro de angústia e inquietude que vai se transformar em música quando aquela menina pouco atraente, com espinhas e acima do peso, descobrir o blues e Bob Dylan, suas maiores influências. 

A partir disso, o que se vê é a transformação da adolescente tímida e sonhadora em um colosso igualmente sonhador, mas determinado a brilhar, como deixam claro as várias cartas para a família que são lidas ao longo do filme, em tom revelador e cativante. A partir dos depoimentos de familiares, amigos e músicos que trabalharam com ela, ilustrados por um deslumbrante arquivo de imagens, o público é apresentado a uma artista até então desconhecida, uma mulher inteligente, articulada, divertida e poderosa, uma mulher que contraria o senso comum de que ela seria apenas uma doida varrida. Um ícone feminista tão à frente de seu tempo que era odiado pelas próprias feministas. 

Melancólico desde os primeiros minutos, ao trazer um trecho de uma carta escrita por Janis no qual comenta ter passado por seu 27º. aniversário (e que sabemos ter sido seu último), Little Girl Blue aponta, em seu título, a natureza triste da cantora e, claro, sua atração pelo gênero musical do qual se tornaria uma representante excepcional. Neste sentido, o fato de o filme logo trazer um depoimento onde ela esclarece considerar a música uma ótima maneira de compartilhar sentimentos é uma decisão inteligente, já que passaremos os próximos 100 minutos descobrindo incidentes que claramente moldaram a percepção da intérprete a respeito do amor e da dor e frustração que este pode trazer consigo. 

Bem estruturado com relação à sua cronologia, o longa é didático também ao ilustrar como Joplin foi de cantora de bar ao estrelato – e, como não poderia deixar de ser, sua participação (ao lado da banda Big Brother and the Holding Company) no Festival Monterey Pop, em 67, ganha destaque nesta trajetória, trazendo inclusive uma entrevista com o lendário documentarista D.A. Pennebaker que, aos 90 anos de idade, relembra sua preocupação em incluir no filme que fez sobre o evento a reação de Cass Elliot (outra que partiu precocemente) diante da performance intensa e inesquecível de Janis - um momento que a diretora Amy Berg apropriadamente resgata. Ao mesmo tempo, Berg não negligencia as influências da fabulosa Odetta e de Otis Redding (mais um morto ainda jovem) sobre o estilo de Janis não só na música, mas no estilo adotado sobre o palco. 

Contando com excelentes imagens de arquivo, entrevistas, áudios, fotos e trechos de cartas escritas por Janis, Little Girl Blue oferece ao espectador – entre outras preciosidades – passagens dos bastidores da gravação de Summertime, revelando, por exemplo, as discussões dos músicos sobre versões diferentes de certos acordes e as reações da vocalista ao ouvir o que acabara de gravar. Este equilíbrio entre instantes intimistas e outros mais “públicos” refletem a experiência e o talento de Amy Berg, não só diretora do brilhante Livrai-nos do Mal, mas também produtora do importante Bhutto.


Com isso, esta obra gradualmente transforma JANIS JOPLIN, um dos símbolos da contracultura norte-americana dos anos 60, em Janis, um ser humano com inquietações, sonhos e medos com os quais todos podemos nos identificar. Esta Janis, que franze as sobrancelhas não só ao cantar, mas ao expor suas opiniões em entrevistas, formando uma expressão de sofrimento quase constante que pode ser lida como um mero maneirismo, mas também como um reflexo de seu tumulto interno, é uma criatura talvez mais fascinante que a JANIS que todos pensamos conhecer – e se a analisarmos sob estes termos, até mesmo a natureza única de sua voz, inquestionavelmente forte e poderosa mas com uma rouquidão que parece denunciar estar prestes a se partir, surge como uma síntese das duas personas e que também passa pelas contradições de uma sociedade que, sexista, limita mesmo que sutilmente sua liberdade pessoal. 

Por fim, é um ótimo documentário para se deliciar com esse ícone da contracultura e do rock mundial, vale muita a pena conferir.

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Leandro Faria  
Artur Lima: aficionado por cinema, música, seriados e livros, não nesta ordem, apaixonado por dias frios e chá. Estudante de Comunicação Social, acha que sabe de tudo e sonha em trabalhar com cinema.
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