19 de jul de 2016

#Cinema: Julieta, de Pedro Almodóvar





O silêncio pode ser devastador. E é ele o deflagrador de todo o drama de Julieta, o novo longa-metragem de Pedro Almodóvar. 'Silêncio', aliás, seria o título da história inspirada em três contos da escritora canadense Alice Munro: Ocasião, Daqui a Pouco Silêncio, que fazem parte do livro Fugitiva.

Julieta que vive em Madri, está prestes a mudar-se com o namorado para Portugal, seus pertences já estão embalados, porém, a pouquíssimos dias da viagem, um reencontro casual com Bea, melhor amiga de infância de Antía, a filha de quem ela não tem notícias há 12 anos, faz com que desista da mudança, para tentar descobrir porque a filha desapareceu sem deixar rastros e onde ela se encontra agora.

Através de um diário, a história é contada a partir do momento em que Julieta conhece o pai de Antía, em uma viagem de trem. Os dois se apaixonam, formam uma família feliz com a chegada de Antía e vivem uma linda história. Mas, devido à sua personalidade introspectiva e afeita a silêncios em auto-defesa, uma série de acontecimentos trágicos se abate na vida de Julieta, culminando no inexplicável afastamento de mãe e filha.

A revelação dos motivos que levaram Antía a abandonar a mãe é um soco no estômago, bem ao estilo Amodóvar de ser. Ainda que de forma mais discreta, Julieta carrega todos os elementos do cinema almodovariano, as cores fortes (destaque para o vermelho e o azul), a representação de alguma letra da sigla LGBT, ainda que bastante sutil (se não prestar bem atenção, talvez passe despercebido) e os mínimos detalhes da narrativa, que fazem o espectador ficar atento a cada pequeno diálogo e expressão dos personagens. Arrisco dizer que aqui, Pedro Almodóvar entrega seu trabalho mais maduro.

O elenco, com rostos diferentes aos que estamos acostumados nas obras do espanhol, também traz a sensação de algo diferente nesse novo Almodóvar. As atrizes Adriana Ugarte e Emma Suárez dividem o papel da protagonista em duas fases: a bela Ugarte é a Julieta jovem, e Emma, a Julieta amadurecida. Ambas estão bem no papel, mas a beleza de Adriana Ugarte é magnética. Se em A Pele Que Habito havia a linda Elena Anaya enchendo a tela com sua formosura, em Julieta, Adriana Ugarte não deixa nada a desejar nesse quesito. Sem seus habituais atores prediletos, como Antonio Banderas, Penélope Cruz, Marisa Paredes, Cecilia Roth e Lola Dueñas, o cineasta retoma sua parceria com Rossy de Palma, uma de suas atrizes preferidas, com quem trabalhou pela última vez em 1995, no filme A Flor do Meu Segredo, e também Dario Grandinetti, protagonista do oscarizado Fale Com Ela, de 2002.

Julieta é o 20° filme de Pedro Almodóvar, e muitos críticos afirmam que não está entre seus 10 melhores. Dez são os filmes que já assisti com a assinatura do diretor e, pra mim, Julieta está entre os sete melhores da minha lista, por suas cores, densidade, o olhar apurado para as relações humanas e pela profunda reflexão sobre o poder do silêncio que, embora seja de ouro, como diz um ditado popular, também pode destruir relações de afeto, que deveriam ser indestrutíveis.

Julieta nos proporciona uma viagem triste e angustiante, mas como um legítimo Almodóvar, nos acena com uma luz no fim do túnel.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone: leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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