29 de ago de 2016

#BaúPop: Conta Comigo, de Rob Reiner





Há 30 anos estreava nas salas de cinema, Conta Comigo (Stand By Me, no original), um verdadeiro clássico que, por muito pouco não foi realizado, e hoje se tornou uma das inspirações da série Stranger Things. Dirigido por Rob Reiner, a produção teve alguns percalços. Primeiro ninguém queria saber de uma história de um grupo de garotos outsiders, rejeitados pela sociedade, duma pequena cidade prosaica chamada Castle Rock e onde tudo parece parado no tempo e a morte de um garoto, cujo corpo não foi encontrado, parece ser a única coisa interessante a ser contada. É justamente o corpo deste garoto que faz com que Gordie, Chris, Vernie e Teddy decidam encontrar e, quem sabe, se tornarem heróis e mudar o rumo de suas vidas.

O personagem central é Gordie (Wil Wheaton), que vive à sombra do irmão, Denny, um rapaz idolatrado pelos pais, esportista e estudante bem sucedido que um dia morre fazendo com que o rejeitado Gordie se pergunte o tempo todo se não era ele quem deveria ter morrido. Ele encontra amizade em Chris (Rive Phoenix), filho de um alcoólatra, que tem um irmão presidiário; Vernie (Jerry O'Connell), que morre de medo do irmão mais velho; e Teddy (Corey Feldman), que tem um pai veterano de guerra internado num hospital psiquiátrico. Juntos, estes pequenos párias conseguem se manter fortes enquanto estão na casa da árvore, uma espécie de fortaleza em que se refugiam, longe dos problemas que os acometem diariamente. 

Conta Comigo é baseado num conto de Stephen King, que fez parte da coletânea Quatro Estações, e não vemos aqui uma história de terror com seres sobrenaturais, algo tão comum na obra do escritor. Os verdadeiros demônios estão presentes na cidade de Castle Rock e, de fato, aterrorizam aqueles meninos. São os adultos que estão sempre lembrando a cada um deles de onde eles vieram e que se tornarão o reflexo dos seus pais: perdedores, alcoólatras, medrosos, malucos. Obviamente, eles não querem isso paras suas vidas, mas por mais que tentem, não conseguem fugir do estigma que foi criado para cada um deles.


Como eu disse no principio, os bastidores do longa foram bem tumultuados. Os roteiristas encontraram alguma dificuldade em convencer Stephen King a vender os direitos do conto e, depois de convencê-lo, o projeto não foi aceito pelos estúdios que o consideravam deveras melancólico. Foi a Embassy, uma pequena produtora, que topou a empreitada, mas como desgraça pouca é bobagem, a produtora foi vendida nas vésperas da filmagem para a Columbia, que não tinha nenhum interesse no projeto. Foi então que um dos ex-donos da Embassy, Norman Lear, viabilizou o orçamento do próprio bolso. Para comandar a empreitada chamaram o diretor Adrian Lyne, que vinha do sucesso Nove e Meia Semanas de Amor, mas ele declinou. Rob Reiner aceitou, entretanto, fez alterações no roteiro, que previa que o protagonista fosse Chris e não Gordie. Tudo parecia bem, mas o filme só conseguiu ser distribuído depois que Guy McElwaine, executivo da Columbia, o assistiu em casa. 

Conta Comigo estreou em agosto de 1986, se tornou um sucesso e virou cult. Catapultou a carreira dos garotos, apesar de que nem todos souberam lidar com a fama. Wil Wheaton não despontou como todos imaginavam e seu maior sucesso  é o papel de si mesmo na sitcom The Big Bang Theory; Corey Fedlman fez sucesso nos anos 80, mas não conseguiu repetir o feito nas décadas seguintes e também enfrentou problemas com drogas; Jerry O'Connell talvez tenha tido mais sorte, já que virou galã e ainda consegue se manter na indústria. Por outro lado, River Phoenix foi o caso mais trágico: faleceu no auge do sucesso, aos 23 anos, de uma overdose.

Conta Comigo é um filme que pode ser visto e revisto durante anos, por ter se tornado atemporal. Como uma verdadeira navalha, ele atinge o espectador ao colocar crianças como personagens fortes, dispostos a mudar o futuro que os espera. Elas sofrem por não poderem fazer o que de fato gostariam de fazer, afinal, são crianças, e são obrigadas a amadurecer rapidamente devido a completa incapacidade e irresponsabilidade de seus pais. Não é por  menos que Stephen King disse na época, que o filme era a melhor adaptação de uma obra sua.

Leia Também:
Serginho Tavares  
Serginho Tavares, apreciador de cinema, para ele um lugar mágico e sagrado, de TV e literatura. Adora escrever. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência e com os pés bem firmes na terra.
FacebookTwitter


0 comentários:

Share