14 de out de 2016

#BaúPop: Meu Bem, Meu Mal





Meu Bem, Meu Mal foi originalmente exibida entre outubro de 1990 e maio de 1991; mas já foi reprisada no Vale a Pena Ver de Novo e agora no Canal Viva. O interesse que as pessoas ainda tem na trama insossa de Cassiano Gabus Mendes deve-se e muito ao habitual charme com que o autor criava suas personagens.

A trama era bem simples. Isadora Venturini (Sílvia Pfeifer), mulher fria e calculista, ambicionava ser presidente da Venturini Designers, de propriedade de Dom Lázaro (Lima Duarte) que comandava a empresa com mãos de ferro. Sua fama de mulher hostil era famosa na sociedade e ela colecionava desafetos, entre eles, Mimi Toledo (Íris de Oliveira), que ao saber que Fernanda (Lídia Brondi), filha de sua manicure, Berenice (Nívea Maria), fora humilhada por Isadora, resolve ajudá-la num plano maquiavélico. Inspirada na história de Pigmaleão, a artimanha consistia em fazer com que a filha de Isadora, a mimada Vitória (Lizandra Souto), se apaixonasse por um rapaz simplório e fosse dispensada por ele. Portanto, com aulas de etiqueta, Doca se transforma em Eduardo Costa Brava (Cássio Gabus Mendes), um milionário. 

Com essa história repleta de furos, Cassiano não exibiu nada de novo. As chamadas prometiam uma novela sexy, requintada e, de fato cumpriu o que prometiam. Exalava sensualidade e havia charme em todos os momentos. Até alguns dos personagens mais humildes eram elegantes o suficiente para carregarem bem seus personagens. 

O que não havia era muita sustentação para aquela história de Doca virar Eduardo Costa Brava, moço oriundo de uma família de milionários que ninguém conhecia na sociedade paulistana. Mesmo que algumas amigas de Mimi Toledo ajudassem no plano, era muito inverossímil que um homem tão poderoso quanto Dom Lázaro não investigasse e descobrisse toda a verdade e se deixasse levar pelo papo furado de Doca. Ora, se o homem investigava até a quilometragem dos carros da família, descobrir a origem de Doca era o mínimo que ele deveria ter feito. O único que de fato parecia saber que havia algo de podre no reino da Dinamarca era João Emanuel, o ex-namorado enciumado de Vitória.


Mas como dizia Janete Clair, novela é novelo e você vai desenrolando e Cassiano sabia lidar bem com isso. Se era fácil enrolar Dom Lázaro, foi fácil conquistar o telespectador. Até a saída de Luma de Oliveira no meio da trama porque ajudou a criar um novo enxerto à história: o seu assassinato pelas mãos de Valentina, a irmã de Dom Lázaro, movimentando vários capítulos.

É importante contextualizar o período que a novela se passava: estávamos em plena era Collor e seu governo insensato que congelou o dinheiro de muita gente. Os tempos também eram de crise. Os personagens não eram maniqueístas e o elenco soube segurar bem o drama de cada um. Vale ressaltar os desempenhos de Sílvia Pfeifer, que viera do sucesso da minissérie Boca do Lixo, e sua pouca experiência ajudou a compor uma mulher ambígua, gélida como um iceberg; Lizandra Souto fez de Vitória sua personagem mais famosa que até hoje é lembrada; e Adriana Esteves conquistou tanto o público, que se tornou protagonista de várias novelas depois. Vale o registro de que foi a primeira novela de Fábio Assunção e a última de Lídia Brondi.

Mas o melhor ficou por conta de Guilherme Karam e Vera Zimerman. O casal Porfírio e sua divina Magda encantou tanto o país que se tornou o ponto alto da trama rocambolesca. Eram deles os melhores diálogos e sua azaração para cima da moça, dizia Karam, ter sido baseada numa história real vivida pelo autor, ditas com propriedade por um ator inspirado.

Meu Bem, Meu Mal não está entre os melhores trabalhos de Cassiano Gabus Mendes (a saber: Anjo Mau, Locomotivas, Marron Glacê, Plumas e Paetês, Ti Ti Ti e Que Rei Sou Eu?), entretanto, marcou uma época e está entre as obras mais lembradas do autor, muito presente na memória de várias pessoas.

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Serginho Tavares  
Serginho Tavares, apreciador de cinema, para ele um lugar mágico e sagrado, de TV e literatura. Adora escrever. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência e com os pés bem firmes na terra.
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