7 de nov de 2016

#ImpressõesFinais: Black Mirror - Terceira Temporada





Entre o fim do ano passado e o início de 2016, conheci, casualmente na Netflix, uma série britânica que possuía, até aquele momento, duas temporadas curtas (3 episódios em cada uma, mais um especial de Natal na segunda), mas incríveis. Assim, devorei os episódios de Black Mirror, encantado com a genialidade por trás de cada história, que usava os acontecimentos de um futuro possível para discutir assuntos do nosso presente. Criada pelo britânico Charlie Brooker e exibida pelo Channel 4 inglês, a série conquistava de cara, mas estava ali, escondida na Netflix, disponível apenas para quem se interessasse pelo tema, não sendo muito divulgada para o grande público. O que mudou com a terceira temporada, encomendada especialmente para a Netflix, e lançada mundialmente com pompa e circunstância pelo serviço de streaming.

É importante esclarecer: Black Mirror não é uma série como a que estamos habituados, com um arco central que se desenvolve com o passar dos episódios. Não. A série tem forma de antologia, ou seja, com episódios independentes, com início, meio e fim. Além disso, o elenco é renovado a cada história e, apesar de citações bem sutis a casos e personagens vistos na série em outros momentos, o elenco não se repete. A única coisa em comum em todos os episódios é o tema da série, que investiga como os homens lidam com o desenvolvimento tecnológico, usando isso, na maioria das vezes, como pano de fundo para discutir a nossa própria humanidade. E faz isso com maestria.

Ao contrário de suas duas temporadas anteriores, esse terceiro ano vem um pouco mais bem servido de episódios, com seis no total. É pouco, perto do que estamos habituados a ver nas séries americanas, mas é o dobro do que Black Mirror forneceu a seu público anteriormente. E são tão próximos da perfeição que, apesar do aumento de episódios, você provavelmente vai devorar cada um rapidamente e já estará órfão desse universo antes do que imagina. 

Nosedive: o primeiro episódio de da terceira temporada.
Em um mundo cada vez mais envolvido pelas redes sociais e com a conectividade influenciando diretamente na vida das pessoas, Charlie Brooker, a mente por trás de Black Mirror, trás para o programa questões que, apesar de ainda não parecerem possíveis para a nossa realidade devido à tecnologia envolvida, não parecem tão distantes assim de tornarem-se reais em algum momento de um futuro próximo. Os episódios dessa terceira temporada parecem beber na inspiração da nossa conectividade para criar os mundos a que somos apresentados.

E que maravilhoso é acompanhar os episódios e tentar traçar paralelos com a realidade atual baseado no que vemos na série. Nosedive, por exemplo, é o episódio que abre esse terceiro ano e que parece muito possível de vermos acontecer em breve, já que as redes sociais já fazem parte do nosso dia a dia e, cada vez mais, a forma como somos avaliados nela influenciam diretamente no mundo real. Aliado à isso, a atuação impecável de Bryce Dallas Howard (mais cheinha e bastante humana), confere um realismo ainda maior ao drama de Lacie, sua personagem obcecada pela alta avaliação nas redes socias.

Em um grupo de seis episódios, é natural que o nível não se mantenha o mesmo e tenhamos destaques positivos e negativos. Entretanto, em Black Mirror, podemos dividir a terceira temporada em episódios geniais e em episódios bons, muito bons. E, nessa segunda categoria, podemos colocar apenas os episódios Playtest e Me Against Fire, sendo o primeiro sobre um americano que, em férias pela Europa decide testar um novo jogo de terror para conseguir uma grana (e tudo, claro, foge do controle) e o segundo uma metáfora sobre o que significa ser humano ou monstro em uma sociedade cada vez mais próxima à perfeição.

San Junipero, o quarto episódio da terceira temporada.
San Junipero é, provavelmente, um dos episódios mais lindos e mais bem escritos, dirigidos e atuados de toda a série. Narrando o relacionamento de duas meninas que se conhecem em uma noite de 1987, o episódio fala sobre família, memórias, amor e sobre o direito que temos de decidir o nosso futuro e a nossa própria morte. É quase poético e, no meio de tantos temas mais pesados de Black Mirror, é daquele tipo de episódio que te arranca sorrisos e te acompanha mesmo depois dos créditos finais terem passado pela tela.

Em contrapartida, Shut Up and Dance é pesado e incômodo, mas totalmente necessário. E apesar de demorar para entendermos o que efetivamente está acontecendo com o protagonista do episódio, quando a ficha cai (e isso só se dá nas cenas finais), você se pega olhando tudo em retrospecto, sabendo que estava tudo ali na sua cara e você não tinha se dado conta. Repito: genial.

E se a temporada começa com Nosedive, falando sobre nossa fixação pelas redes sociais, ela se encerra com o excelente Hated in the Nation, que pega a interação virtual para criar um verdadeiro thriller policial, onde acompanhamos uma investigação de assassinatos que, parece, são motivados por ódio incitado nas redes sociais. 
Hated in The Nation: o quarto episódio da terceira temporada.
Com roteiros bem amarardos, atuações acima da média e direção segura de seus realizadores, Black Mirror veio com tudo em seu terceiro ano, abraçando um público maior (que, aconselho, deveria assistir as duas temporadas anteriores, se ainda não fez isso) e nos mostrando que, para o bem ou para o mal, o futuro já começou. E deixando cada um de nós, fãs do trabalho de Charlie Brooker, pelos novos seis episódios já confirmados para 2017. Que venha logo!

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Leandro Faria  
Leandro Faria, do Rio de Janeiro, fruto da década de 80, viciado em cultura pop em geral. Como vício bom a gente alimenta e compartilha, estou aqui para falar de cinema, televisão, música, literatura e de tudo mais que possa (ou não) ser relevante. Por isso, puxe a cadeira, se acomode e toma mais um copo, porque papo bom a gente curte é desse jeito!
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