8 de nov de 2016

#ImpressõesFinais: Haja Coração





Confesso que não esperava muito de Haja Coração. Primeiro, por ser uma novela baseada em Sassaricando, trama escrita por Silvio de Abreu e que sempre considerei insossa e inferior a Jogo da Vida (1981/1982), Guerra dos Sexos (1983) e Cambalacho (1986), suas antecessoras desenvolvidas pelo mesmo autor. Portanto, se não fosse a exagerada Tancinha da Cláudia Raia, e a louca Fedora Abdala de Cristina Pereira, nem lembraria que a novela existiu. E olha que tinha um elenco de fazer inveja a qualquer produção global: Paulo Autran, Tônia Carreiro, Eva Wilma, Irene Ravache, Lolita Rodriguez, Maitê Proença, Edson Celulari, Jandira Martini, Diogo Vilela, Ileana Kwasinsky, Maria Alice Vergueiro, Laerte Morrone, Jorge Lafond, Carlos Zara e Marcos Frota.

Sassaricando, como dito, serviu de inspiração para Daniel Ortiz que, em muitos momentos se valeu dela para criar entrechos que seguraram o telespectador. Mas o melhor mesmo foi ele se soltar das amarras daquela novela e poder fazer uma história que muito mais se assemelha ao seu estilo do que ao de Silvio e, mais ainda, compor uma narrativa bem mais interessante que prendeu o público.

Se cabia a Mariana Ximenes a difícil missão de recriar a inesquecível Tancinha, coube a Tatá Werneck outra dura missão, que era compor a tresloucada Fedora. Enquanto a primeira conseguiu fazer a personagem com dignidade, sem exageros e muito mais humana, a outra teve suas cenas roubadas por atores mais experientes como Grace Gianoukas (Teodora) e Gabriel Godoy (Leozinho) e, ainda mais com a entrada da prima Safira (Cristina Pereira), numa forma de homenagear a atriz pelo seu papel mais famoso na TV, e que acabou chamando mais uma vez a atenção, deixando Tatá em segundo plano. Mesmo assim, os problemas de dicção de Tatá foram corrigidos e se sua Fedora não arrebatou, pelo menos não passou vergonha.

Outros bons momentos ficaram reservados ao casal mais fofo da novela, Shirlei (Sabrina Petraglia) e Felipe (Marcos Pitombo). Shirlei, por sinal, foi uma personagem trazida de outro sucesso do autor, Torre de Babel (1998/1999). O público gostou tanto que se mostrou muito mais interessado em torcer por eles do que pelo quadrilátero amoroso formado por Beto/Tancinha/Apolo/Tamara. Claro que, na verdade, a culpa disso foi a péssima escalação de Malvino Salvador para interpretar Apolo. Sem talento algum, o ator fez aquilo que sempre fez em todas as novelas que participou: tirou a camisa e saiu esbofeteando e brigando com todo mundo. O mesmo pode se dizer de Cléo Pires, que compôs uma Tamara sem carisma algum, completamente apagada na trama. Enquanto isso, o novato João Baldasserini só viu seu papel crescer ao se fazer valer de seu talento para compor um divertido e cafajeste Beto Velásquez, a tal ponto que o público deixou de lado o mocinho Apolo para torcer por Beto, perdoando seus deslizes ao longo da trama, causando assim uma ambiguidade muito bem explorada pelo autor.

Daniel Ortiz também pode fazer com que atrizes acostumadas a determinados papéis pudessem sair de suas zonas de conforto. Como, por exemplo, Malu Mader, que se deixou levar pela comédia, gênero que não lhe é muito familiar; Marisa Orth, ao compor uma legítima mama italiana; e Fernanda Vasconcellos, que deixou de lado as mocinhas juvenis e fez uma vilã odiosa. Outros destaques que devem ser citados: Marcelo Médici (Gigi), mais uma vez excelente; e Ellen Roche, que nasceu para a comédia, ao interpretar uma impagável Leonora Lamar, arrancando aplausos da crítica e do público.

Haja Coração serviu para a Rede Globo provar mais uma vez que o horário das 19 horas é mesmo do gênero comédia romântica e que Daniel Ortiz é um autor hábil, inteligente, que sabe criar bons momentos mesmo sem nenhum tipo de inovação. Seus personagens até podem ser maniqueístas, mas isso não importa muito quando o objetivo é apenas fazer sonhar e divertir, o que todo mundo espera antes das tristes notícias dos noticiários. E, se depender dele, esse gênero não morrerá tão cedo. 

Serginho Tavares  
Serginho Tavares, apreciador de cinema, para ele um lugar mágico e sagrado, de TV e literatura. Adora escrever. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência e com os pés bem firmes na terra.
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2 comentários:

jair machado rodrigues disse...

Olá Serginho só passei para dar umas risadas, digo, fazer uma leitura...novelinha chata, mas gostei da mal caráter, personagem da Fernanda...aproveitando, aquele cara, o neto da Maísa, só faz novelas porque é filho de um diretor, senão não faria, completamente sem talento, sempre vejo a mesma pessoa e chata ainda por cima, enfim, só para aproveitar e destilar um veneninho.
ps. Carinho respeito e abraço.

Cilantro disse...

Esperavam o que de Malvino e Cléo? Os dois são péssimos por natureza, ela principalmente. E Tatá Werneck, já chega, eu não aguento mais também ela ser sempre o mesmo perfil de papel.

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