8 de dez de 2016

#PopSéries: 3% - A Primeira Série Brasileira da Netflix





A premissa e o piloto da série 3% já são conhecidos de uma parcela dos brasileiros desde 2011. Na época, formam lançados os primeiros 27 minutos da série, que teve produção da Maria Bonita Filmes e serviu como cartão de visita para os produtores conseguirem investimento e espaço na Netflix, e então engatarem a primeira realização brasileira na famosa empresa de streaming que, certamente, tem um plano para dominar do mundo.

A premissa de 3% é simples e era mais interessante em 2011 do que é em 2016, embora ainda funcione. Em um mundo distópico, uma sociedade se divide entre o Continente miserável e o Maralto paradisíaco. Aos 20 anos, todos os cidadãos possuem uma única chance de passar [do Continente] para o [Maralto] “lado de lá” através do Processo. 

As fontes e semelhanças com outras produções do gênero são inúmeras. Primeiro, é importante ter em mente que o episódio Cubos é uma reprise, com outra finalização, do Piloto/Curta de 2011. Existem ecos visuais e elementos narrativos de Elysium (2013) e realidades destroçadas e marcadas pela oposição e também dependência entre dois lados distintos da população na linha da série literária Jogos Vorazes, para ficar apenas em algo mais recente. 

Desde o início dos testes do Processo, surgem indícios de que a aparente paz que perdura nesse ambiente tecnológico onde os candidatos são submetidos aos testes não é bem o que pode parecer. Pequenas conversas e olhares começam a anunciar que alguns dos integrantes desses 3% que conduzem os testes têm histórias uns com os outros, boas ou ruins, e os verdadeiros planos dos participantes para fazer parte desses 3% começam a ser revelados. 

Para uma base geral de uma sociedade dividida, o melhor caminho a ser tomado é a apresentação clara do que faz os dois lugares serem diferentes, até para sustentar as ideias dos que acreditam no Processo e as motivações de revolução da Causa, que pela forma como foi apresentada nos roteiros, deu mais munição para aqueles que afirmam que são uma organização criminosa e não um grupo que está lutando para que os horrores desse processo não existam e que haja uma forma de todos terem uma vida digna. 

Alguns personagens são interessantes por diferentes motivos, mas quase nenhum deles permanece interessante até o fim. Rafael (Rodolfo Valente) começa bem, mas tem um desenvolvimento cada vez menos digerível. E para um personagem “chato” como ele (esse “chato” é o “chato” bom, aquele personagem que você quer matar, que te faz ficar com raiva toda vez que aparece, pela força dramatúrgica que tem), um bom desenvolvimento seria essencial, mas ele recebeu falas cada vez mais vazias, com a intenção de serem boas tiradas de sarro, e foi alterando sua configuração ao longo dos episódios, terminando como alguém que quase desiste do Processo e faz “caso” porque no Maralto todos são esterilizados. Simplesmente não combina com ele. 

Mas creio que ninguém tem um destino tão patético e tão ingrato quanto Joana (Vaneza Oliveira) e Fernando (Michel Gomes). O último episódio descarateriza-os completamente, dando-lhes um caminho pré-definido para a Causa e fugindo de tudo o que estava no processo. A neurose de Fernando por Michele (Bianca Comparato) é sem dúvida a pior inserção para a linha de qualquer personagem da série e a brincadeira de montanha-russa com Ezequiel (João Miguel, não inteiramente à vontade em todos os episódios) também não traz nenhum benefício. As únicas personagens que foram construídas com coerência e tiveram bons destinos na reta final foram Aline (Viviane Porto) e, principalmente, Cássia (Luciana Paes). 

Com alguns diálogos dispensáveis e até risíveis, misturados com boa crítica social e um roteiro que tem sim momentos instigantes, mas que se perde muito rapidamente, a primeira série brasileira da Netflix precisa passar por uma revolução textual intensa para chegar ao nível das boas séries da empresa a que estamos acostumados. 

3%, infelizmente, não teve, por enquanto, o suficiente para vencer o Processo e viver no Maralto das séries, mas já teve sua segunda temporada confirmada pela Netflix. Esperamos que a série tenho realmente uma reformulação contextual para que a série venha a mostrar todo o seu potencial e se fincar de vez como uma grande produção original.

Leia Também:
Leandro Faria  
Artur Lima: aficionado por cinema, música, seriados e livros, não nesta ordem, apaixonado por dias frios e chá. Estudante de Comunicação Social, acha que sabe de tudo e sonha em trabalhar com cinema.
FacebookTwitter


0 comentários:

Share