10 de jan de 2017

#Cinema: Inferno, de Ron Howard




Em 2003, Dan Brown lançava seu grande sucesso editorial, O Código Da Vinci, criando rapidamente uma boa base de fãs. Evidentemente, Hollywood não deixou passar essa oportunidade e logo O Código virou filme, conquistando um ótimo público, no entanto, com um resultado bastante duvidoso. Quatro anos depois, o diretor, Ron Howard e o astro Tom Hanks, se reuniram para dar sequência ao blockbuster, realizando o razoável Anjos e Demônios. Em 2016, a expectativa era que a próxima aventura do simbologista Robert Langdon demonstrasse uma evolução ainda maior em relação aos seus longas antecessores, mas parece que a franquia vem perdendo ainda mais força, não compreendendo nem mesmo o que fazia sucesso dentro de seus livros e filmes. 

E o que causava mais interesse nas obras baseadas nos livros de Dan Brown era justamente a fabulação e criação de grandes teorias conspiratórias envolvendo instituições, grupos e seitas secretas bastante conhecidas. Dessa forma, tanto livro quanto filme conseguiam conectar-se facilmente a realidade. Os fatos ocorridos nas páginas e nas telas citavam nomes que provavelmente o público já ouvira, sejam pistas sobre Jesus Cristo nas obras de Da Vinci, ou uma trama entre Iluminatis, Vaticano e a CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear). Vale lembrar que Brown sempre inicia seus livros com algum fato verídico que inspira sua trama. E Inferno foge justamente dessa característica. 

Dessa vez, Robert Langdon (Tom Hanks) acorda com amnésia e um aparente ferimento na cabeça, em um hospital de Florença, Itália. O começo confuso e conturbado é uma das poucas coisas que difere essa produção das outras. Logo após ser misteriosamente atacado, ele acaba no apartamento da Dra. Sienna Brooks (Felicity Jones), onde encontra um pequeno projetor da famosa pintura de Botticelli, Mappa dell’Inferno. Graças a seus anos de estudo, Robert percebe que há algo errado na pintura e não demora para Langdon perceber que está envolvido em uma conspiração, envolvendo os mistérios do clássico da literatura A Divina Comédia, de Dante Alighieri. 

Novamente dirigido por Ron Howard, Inferno não deixa a desejar no aspecto técnico com uma ótima fotografia, aproveitando o belíssimo cenário de Florença. Mas o diretor estabelece uma linha narrativa muito confusa. Quem leu o livro, ficará bem situado em cenas pontuais. Quem acompanha apenas os filmes, ficará perdido com sequências de ação bem desconexas. 

Pela primeira vez, um filme da franquia não se utiliza da realidade para fazer sua ficção, algo que embora seja bastante questionável era a grande força dos filmes. É bem verdade que o filme cita órgãos presentes na dinâmica mundial, como a OMS, porém, isso mais situa a trama do que se utiliza de um imaginário em torno das conspirações. Assim como as locações nos grandes centros europeus, que aqui funcionam apenas como meros cenários, não havendo uma grande interação entre trama e aqueles monumentos históricos, como era fundamental em seus outros longas. Inferno deixa alguns pontos chaves de sua franquia e empalidece ainda mais tentando ser um filme de ação comum. 

E parece que a película busca justamente isso, inserir-se no hall dos filmes de ação do momento. A câmera na mão, a montagem acelerada, o ritmo caótico e o roteiro dinâmico. Porém, ao colocar essas características na história de um professor acadêmico algo parece não dar muito certo. Dessa forma, Inferno parece ser um filme que tenta se moldar através de recursos estilísticos da moda, mesmo que isso não seja conveniente àquela história.

Tom Hanks e Felicity Jones desempenham atuações burocráticas, o que é pouco para atores de tal calibre. Com um roteiro bem previsível, os atores são forçados a fazerem basicamente o mesmo que vimos nas duas primeiras produções, Hanks, como Langdon, e Jones como a tradicional jovem envolvida. Além disso, não há uma sintonia entre eles, como ocorreu entre Hanks e Audrey Tautou, em O Código Da Vinci, e Hanks e Ayelet Zurer, em Anjos e Demônios. Em Inferno, só observamos tal sintonia mais para o final, com uma atuação excelente de Sidse Babett Knudsen, no papel da Dra Elizabeth Sinskey. 

Sente-se que todas escolhas tomam como base a facilidade, tomando apenas o seguro como rumo a ser seguido. Tanto na direção, roteiro e edição o que se vê é algo que costuma dar certo e ponto, sem nenhuma elaboração em torno da trama de Robert Langdon. Sendo assim, Inferno também não consegue sair do lugar comum, todas as resoluções são óbvias, vistas em tantos outros filmes. Esse pragmatismo é visto também na construção do roteiro. David Koepp faz um trabalho que não se envergonha de utilizar uma série de flashbacks ou verbalizar todos os pontos que a trama não consegue esclarecer. O último terço de Inferno é uma explicação constante de pontas soltas deixadas por Koepp. 

Isso sem contar os inúmeros furos na trama. Num deles, Langdon está rendido numa cripta subterrânea ameaçado por um perigoso personagem; de repente, outro indivíduo, que estava em outro país sem saber onde o simbologista se encontrava, chega e salva o protagonista, numa resolução sem explicação nenhuma que só serve para manter o protagonista vivo. Assim como a estrutura dramática do longa, que começa com Langdon na cama de um hospital sem se lembrar de nada, já imerso numa conspiração internacional. No entanto, esse fato só parece uma desculpa para iniciar o filme de forma distinta em relação aos outros dois, e a quantidade de flashbacks que explica o que houve antes daquela maca de hospital só comprovam isso, mostrando-se uma trama que necessita ser explicitada e isso surgindo da pior maneira possível. 

Seria manjado e até cruel dizer que o filme é um inferno. No entanto, a película de Ron Howard demonstra por completo o esgotamento de uma franquia que já vinha mostrando certo cansaço. Mesmo com a sobrevida ganhada com Anjos e Demônios, Inferno escancara que as aventuras de Robert Langdon podem fazer sucesso nas páginas de Dan Brown, mas nas telas de cinema costumam não funcionar.

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Leandro Faria  
Artur Lima: aficionado por cinema, música, seriados e livros, não nesta ordem, apaixonado por dias frios e chá. Estudante de Comunicação Social, acha que sabe de tudo e sonha em trabalhar com cinema.
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