12 de jan de 2017

#Literatura: Selma e Sinatra, de Martha Medeiros





Meu amor por Martha Medeiros nasceu nas primeiras páginas de Divã. Me atrevo a dizer que foram nas primeiras linhas daquele livro que me vi encantado e seduzido por aquela escrita. Ela, Martha, sabe como ninguém colocar poesia no cotidiano. E foi com esse gostinho que me vi com Selma & Sinatra em mãos. 

Adquiri o livro em um sebo, nem sabia de sua existência, para ser bem honesto. Mas ser uma obra de Martha Medeiros foi uma certeza de que precisava folhear aquelas breve páginas. Breve mesmo, o livro só possui 129. Ou seja, li tudo bem rápido, quase como quando tomamos um copo de água no calor sem precedentes do Rio de Janeiro.

A história é sobre Guta, jornalista com três livros publicados e nenhum sucesso. Ela trata como fracasso e vê uma grande oportunidade em escrever a biografia de Selma, uma das grandes cantoras que o Brasil já teve. O enredo coloca uma mulher que não vive o melhor momento de sua vida convivendo com outra que teve, aparentemente, a vida dos sonhos. O marido perfeito, uma carreira brilhante, foi amada por todos e continua sendo bem lembrada até hoje, apesar da certa idade… Seriam sessenta ou setenta anos? Ah, isso não importa. É meramente um número, que não dá legitimidade a nada. O que se vive não está preso aos numerais enfileirados que formam uma data, mas nas lembrança que se tem de determinada pessoa ou lugar. O que é relevante saber é que Selma continua sendo um nome de respeito quando pronunciado.

Mas será que é isso mesmo? Não importa a posição que você ocupe, esqueletos são sempre guardados no armário. Ou será que contos de fadas são destinados aos poucos escolhidos pela vida? Bem, essa é uma questão que me vi tentando responder enquanto ia do ponto de vista de Guta à Selma, dentro da mesma situação. Sim. O livro é brilhantemente narrado no ponto de vista das duas mulheres. Com isso é possível sentir toda a angústia de Guta e seu desejo de acertar e finalmente acontecer pra vida. Sentir como uma das poucas escolhidas, que foi premiada para viver seu sonho dourado. Da outra ponta temos Selma. Que viveu alguns sonhos, que logicamente prefere não revelar para a jornalista, assim como pesadelos, que mantém guardados em um porão de lembranças que nunca é acessado. Chegamos ao ponto de questionar o que é verdade e o que é mentira. Mas isso Martha, com sua brilhante sensibilidade, vai responder como quem não quer nada.
“As versões que apresentamos de nós mesmos são verdades escolhidas, pinçadas de dentro de um emaranhado de opções. Ninguém pode ousar adivinhar o que se passa na cabeça dos outros, ou exigir coerência de quem quer que seja. Em algum momento eu lhe disse que esta rendição ao convencional me fez uma mulher infeliz? Pois não fez. Infeliz eu teria sido se ficasse de braços cruzados esperando a vida fazer de mim o que bem entende.”
No fim, vamos descobrindo as lições que são necessárias para a vida de Guta, que tanto fez escolhas que julga, boa parte do livro, equivocadas. Mas que em sua maioria foram imaturas ou simplesmente clichês. Mas que acontecem na vida de várias pessoas.

Selma & Sinatra não mexeu comigo como aconteceu com Divã. Parte pode ter sido totalmente minha culpa, por esperar muito baseado no que tinha vivido com o outro livro, escrito em outra época por Martha Medeiros. Só que algumas lições foram aprendidas e outras ainda estão sendo assimiladas. No fim, vale muito ler esse livro em uma tarde de domingo. Assim, sem querer, você pode fazer resoluções para sua vida e iniciar logo no dia seguinte, na segunda-feira. Ou como sempre gostamos de imaginar quando decidimos mudar algo que julgamos de muita importância: o primeiro dia do resto de nossas vidas. 
“O que é a felicidade senão uma grande obra de ficção? Deixe de ser obcecada pela verdade, menina. Ser feliz é uma arte, é uma manifestação abstrata, lúdica, criativa - mas inventada. Cada um assina a sua própria obra.”
Selma e Sinatra
Autora: Martha Medeiros
Páginas: 132
Editora: Objetiva

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Leandro Faria  
Silvestre Mendes é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance. Além disso, é o dono das colunas de quinta-feira no Barba Feita.
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