20 de fev de 2017

#BaúPop: Clube dos Cinco, de John Hughes





O Clube dos Cinco deve ser tratado como uma herança, nada menos que isso. Marcou a geração da década de 1980 e ainda hoje é considerado como um filme que evoca o espírito adolescente, por tratar de forma curiosa, linda, cômica e, ouso dizer, atemporal o peso que cada jovem carrega em suas costas. 

A trama é baseada nas diferenças entre os estereótipos de cinco adolescentes: um esportista, um nerd, uma princesa, um bad boy e uma esquisita. Os cinco têm que passar (e suportar) um sábado inteiro juntos numa sala em detenção, enquanto têm como atividade escrever um texto longo sobre o que pensam sobre si mesmos. A convivência no início parece ser insuportável mas, com o tempo, os jovens vão compartilhando seus sentimentos e problemas, se conhecendo e aprendendo uns com os outros. 

Um dos fatores mais incômodos dos filmes adolescentes é a certeza de que os estereótipos estarão sempre lá, marcando presença com afinco, comprometendo assim toda a originalidade da obra. Por outro lado, não se pode culpar roteiristas e diretores quando esse problema é questionado, já que a juventude é uma fase marcada por certas tradições, costumes e estilos, independe de sua época. Fica difícil então para um cineasta livrar-se dos clichês e ainda assim manter uma atmosfera de realismo dentro dos enredos de seus trabalhos. Por causa disso, John Hughes, uma referência no assunto, nunca se envergonhou de usar e abusar desses estereótipos em seus filmes, pois sabia que, no fundo, não passavam de verdades inegáveis. O que fez o cinema dele diferente da grande maioria de seus colegas foi a sabedoria e esperteza em usar os clichês da maneira correta, em prol de algo muito maior. Dentre toda sua filmografia, Clube dos Cinco (The Breakfast Club, 1985) é o que mais exemplifica essa habilidade com maior precisão. 

Clube dos Cinco é um filme que tem já em sua sinopse uma proposta muito clara e bem definida: retratar e adentrar em todo o universo adolescente através de cinco personagens clássicos: o popular, a patricinha, a esquisita, o nerd e o rebelde. De fato, começa aqui o uso descarado dos mais óbvios clichês do sub-gênero, embora a condução que cada um ganha seja exatamente a oposta do que todos poderíamos imaginar. É nesse momento que entendemos a grande sacada do roteiro – a quebra de tais estereótipos. Hughes não é limitado ao ponto de apenas mostrar o convencional e o dedutível; ele rompe essas obviedades ao nos apresentar cinco personagens dotados de uma inesperada profundidade, que dão voz a todos aqueles que um dia já passaram por todos os perrengues que envolvem estar na condição de adolescente. 

A princípio, os temas que vão surgindo na conversa entre os tais alunos giram em torno das trivialidades do cotidiano de um jovem americano de classe média, como festas, namoros, escola, notas e afins. Até então, o que vemos é Hughes nos apresentando os clichês de maneira cordial, até cômica, e definindo assim uma influência particular de cada um sobre o espectador – ele nos induz a julgar cada um ali com base nos estereótipos tão arraigados em nossas mentes. Mas depois, tudo vai ganhando uma abordagem um tanto mais dramática, aos poucos intensa e, finalmente, devastadora. De repente, estamos diante de um círculo de pessoas se abrindo sem pudor, em uma exposição incisiva sobre suas respectivas ansiedades e desejos. Quebra-se nesse instante tudo o que pensávamos de cada um até então e sobra apenas um espelho onde é impossível não se enxergar. Independente de cada formação, de cada personalidade, de cada sexo, todos ali sofrem das mesmas dificuldades e sonham com as mesmas ilusões. O clube agora é integrado por alguém a mais: o próprio espectador – e todos são um só. 

Mais do que um filme adolescente, é um ensaio sobre as implicações da época mais complicada e intensa da vida. E vale muito revisitar essa bela obra de meados dos saudosos anos oitenta.

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Leandro Faria  
Artur Lima: aficionado por cinema, música, seriados e livros, não nesta ordem, apaixonado por dias frios e chá. Estudante de Comunicação Social, acha que sabe de tudo e sonha em trabalhar com cinema.
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