1 de abr de 2017

#ConsideraçõesFinais: A Lei do Amor




Quando foi anunciada há um bom tempo atrás com o título de Sagrada Família, fiquei ansioso por ver em horário nobre uma trama de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari. Tendo visto seus últimos trabalhos na emissora, esperava por algo que pudesse balançar o abatido horário das nove. Entretanto, a Globo adiou sua estreia porque considerava o tema central espinhoso naquele momento que o país atravessava.

Rebatizada com o nome de A Lei do Amor, a novela prometeu resgatar o público já cansado de tramas arrastadas que tem frustrado o telespectador. Desde que a Globo passou a adotar o tema "novela das nove", a emissora já apresentou até agora onze tramas e destas os únicos destaques foram Avenida Brasil, que parou o país, e Amor À Vida, que trouxe um dos personagens mais icônicos da TV, o Félix, de Mateus Solano.

E tentativas existiram. Em Família estreou como sendo a última do Manoel Carlos, mas esqueceram que o público já havia desistido de suas tramas Leblon feat. Bossa Nova há um bom tempo; Babilônia chegou prometendo alavancar o horário com um grande número de astros em seu elenco e foi uma das maiores decepções da emissora; A Regra do Jogo se vangloriava de ser uma nova Avenida Brasil e não chegou nem perto; e Velho Chico nasceu cagada devido às declarações homofóbicas de seu autor.

Com tantos problemas, é natural que a Globo sempre queira caprichar num formato que ela domina como ninguém. A Lei do Amor tinha tudo para agradar o espectador, mas esqueceram apenas uma coisinha fundamental nos folhetins: uma trama central que fizesse o público ficar parado em frente à TV.

Não tem como mudar isso e já dizia a mestra de todos nós, Janete Clair, novela é um novelo que você vai desenrolando ao longo do tempo e é melhor ganhar personagens do que perdê-los e, sendo assim, A Lei do Amor errou em tudo. Primeiro que a trama central não se desenrolava, estava lá parada e, quando começou a andar, começou a sumir com todos os atores da história, muitos desconhecidos ou com pouca presença em cena. A novela tinha gente demais e o público não estava acompanhando.

Com essa reviravolta, começou a surgir uma nova novela que de longe não tinha mais nada do que se propusera no início. Sorte teve Vera Holtz, que assumiu a missão de sozinha carregar a novela nas costas com sua macabra Magnólia, que defendia a moral e bons costumes, mas tinha um caso com o genro, cometia assassinatos e arquitetava outros e ainda tinha tempo para planejar todo o tipo de corrupção.

Magnólia poderia ter se tornado uma vilã memorável para a teledramaturgia se a novela tivesse dado oportunidade para isso, mas o casal central, Helô - Claudia Abreu, sempre perfeita -  e Pedro - Reynaldo Gianecchini, no piloto automático -  não tinha uma história forte suficiente para garantir que o público torcesse por eles. Contudo, a queda de Magnólia fez crescer a audiência da novela, o povo parece ter gostado de ver a megera se dando mal.

Outro momento estranho foi o sumiço de Isabela (Alice Wegmann) e o surgimento de Marina (novamente Alice Wegmann). Seriam a mesma pessoa? E se fossem, como explicar que a garçonete, estudante de cursinho pré-vestibular, se tornou massagista profissional. O próprio Tião Bezerra (José Mayer) dizia que para conseguir fazer algo assim e enganar todo mundo ela teria que ter dinheiro e Isabela era uma lisa, coitada. O último capítulo mostrou que de fato eram a mesma pessoa.

O trio Letícia-Tiago-Isabela, aliás, foi um dos maiores prejudicados pelas constantes mudanças na novela. Primeiro Letícia (Isabella Santoni) era chata e Isabela um doce e todos torciam para que Tiago (Humberto Carrão) ficasse com ela, mas daí com o sumiço de Isabela, Letícia vira um mocinha fofa, Tiago um bobalhão e Isabela a.k.a. Marina volta um verdadeiro demônio. Para alegria geral, Letícia tem um final feliz com seu melhor amigo, Antônio (Pierre Baitelli), e Tiago e Isabela não ficaram juntos.

Outro problema não solucionado e difícil de engolir foi o estupro de Vitória (Camila Morgado). Na festa que ela dizia ter sido violentada ela já estaria grávida, portanto, teria que ter sido outra festa que em momento algum os autores explicaram. Como bom noveleiro que sou, sei que novela é uma obra aberta que não almeja coerência, mas assim não dá, né? Aliás, uma atriz como Camila Morgado merecia ter tido mais espaço na história.

Como também mereciam atores talentosos como Tarcísio Meira e Claudia Raia que também não foram aproveitados à altura de suas capacidades histriônicas, e o núcleo cômico também deixou a desejar. Heloísa Perissé até tentou fazer de sua Mileide uma personagem engraçada, mas ela estava mais perdida que cego em tiroteio, assim como Titina Medeiros (Ruty Raquel) e  Érico Brás (Jader), que quase não tinham função na trama. Acabou ficando para a divertida Luciane (Grazi Massafera, que de um limão fez uma limonada) mostrar sua graça e no final sonhar em ser primeira-dama.

No último capítulo pudemos ver alguns bons momentos que deixaram claro que a novela poderia ter sido melhor do que foi, algumas histórias ficaram pelo caminho, outras não foram desenvolvidas como poderiam, todavia A Lei do Amor não chegou a ser pior que Babilônia, mas não será uma novela que deixará saudade. Ficou devendo muito do que estes autores são capazes de mostrar.

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Serginho Tavares  
Serginho Tavares, apreciador de cinema, para ele um lugar mágico e sagrado, de TV e literatura. Adora escrever. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência e com os pés bem firmes na terra.
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