1 de mai de 2017

#ConsideraçõesFinais - Feud: Bette and Joan





Este texto não foi fácil, não conseguia encontrar uma forma de começá-lo, talvez porque ainda esteja embevecido com o último episódio. A forma como a série foi construída do começo ao fim a levou a um gran finale daqueles que a gente espera e, quando acontece, ainda é melhor do que qualquer coisa que a gente nem sequer ousou imaginar.

Feud não se preocupou em apenas contar a rivalidade de duas das maiores lendas de Holywood, mas sim em mostrar que elas eram antes de tudo mulheres que amavam, odiavam, brigavam, faziam as pazes, sonhavam, sofriam, sofriam muito aliás. Se ainda não é fácil ser mulher nos dias de hoje, naquela época então, afff!

Sobretudo, foram percursoras, desafiavam a sociedade, os homens, não tinham medo de dizer a eles quem mandava e, talvez por isso tenham pago um preço alto ao envelhecerem, mas elas não se dobravam, alcançaram um status que as permitiam ser quem elas eram, entretanto, o mundo é sempre muito cruel com as mulheres.

E elas foram usadas pela indústria, era necessário que a áurea de rivalidade que existia entre elas perdurasse por um bom tempo. Era necessário que um homem mostrasse que elas não eram mais tão importantes assim e que podiam ser substituídas, era necessário que elas tivessem medo. Pudemos ver isso na cena em que Jack L. Warner (Stanley Tucci) pede para que Robert Aldrich (Alfred Molina) atice a rivalidade entre as duas.

Acredito que quem mais saiu perdendo foi Joan Crawford. Uma mulher bonita, talentosa sim, mas muito bonita que acabou criando para si uma personagem e, ao envelhecer, ela já não era mais aquilo que criara e se tornara uma figura patética. Se antes usaram e abusaram da sua beleza e ela soube se beneficiar com isso, no fim da vida lhe sobrou o abandono. Pra piorar, quando morreu, sua filha mais velha, Christina, escreveu um livro que detonava a coitada; o livro foi um sucesso, virou filme e a imagem ruim que o mundo ainda tem de Joan, a megera, vem daí.

Ela não deve ter sido uma mãe tão boa assim, mas ela era uma mulher tentando sobreviver num ninho de cobras, era a lei da selva e ela não queria estar em último na cadeia alimentar. Pensando assim, entendo que Ryan Murphy tenha tentado ao máximo humanizar Joan Crawford e delegou sua amiga Jessica Lange para tal feito. Algo perigoso, já que no passado Faye Dunaway fez o mesmo e acabou com sua carreira em Mamãezinha Querida, filme baseado no fatídico livro de Cristina, a filha. Por sinal, Joan dizia que Dunaway era a atriz perfeita para vivê-la no cinema. Bem, ela não conhecia Jessica Lange.

E Bette Davis talvez até tenha chegado a ouvir falar em Susan Sarandon, que aqui teve o maior desafio de sua carreira, interpretar a maior de todas as atrizes do cinema, uma mulher que tinha completamente noção do seu papel no meio, que sabia de sua importância e, mais ainda, do seu talento. Ao contrário de sua rival, Bette era uma verdadeira operária do ofício, ela sabia o que era pra ser feito, como ser feito e fazia bem e exigia de todos em volta nada mais do que o melhor que eles pudessem dar.

Bette Davis sabia que Joan Crawford era boa quando queria, quem sabe elas poderiam ter se tornado amigas de fato, como na cena final de O Que Terá Acontecido a Baby Jane? sugere. A série deixa claro que isso poderia ter ocorrido se não houvesse tanta interferência por parte da imprensa (na série, a imprensa era vista pelos olhos de Hedda Hopper, ou melhor, Judy Davis, a temida jornalista famosa por levantar e destruir carreiras), do estúdio, dos fãs.

E Feud soube usar bem das referências, mesmo se baseando em fatos reais, o subtexto fez a alegria dos fãs de ambas as atrizes. E, claro, a série não viveu apenas dos superlativos talentos de Susan Sarandon e Jessica Lange, mas viveu também de um excelente elenco secundário em que todos personificaram seus personagens com dignidade.

Feud chegou ao fim deixando saudade. A cena final é de cortar o coração (obviamente, não vou revelar aqui) mas há muito de Bette e Joan em todos nós. As duas se tornaram ícones muito cedo, mas antes disso eram seres humanos e talvez por isso tenha sido fácil se identificar com elas. Contudo, Bette Davis pode te resumido tudo o que de fato Feud quis dizer:
"Isso não é vida real, é Hollywood, Hedda. Tudo é falso. Dos gramados lindos no deserto até sua preocupação fabricada." (Bette Davis)
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Serginho Tavares  
Serginho Tavares, apreciador de cinema, para ele um lugar mágico e sagrado, de TV e literatura. Adora escrever. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência e com os pés bem firmes na terra.
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1 comentários:

Marco disse...

Deu vontade de ver!

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